Opinião

O palavrão

[Bolsonaro falar 'caguei' para a CPI] vai além do "palavrão", é um desrespeito ao decoro republicano ao revelar, como já revelado em outras ocasiões, grave desprezo pelas Instituições Democráticas. Leia a opinião de Gustavo Krause

GUSTAVO KRAUSE
GUSTAVO KRAUSE
Publicado em 18/07/2021 às 10:48
Artigo
ALAN SANTOS/PR
Presidente Bolsonaro usou expressão chula e afrontosa que ele usou para responder às perguntas da formuladas pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado sobre questões suscitadas nos interrogatórios - FOTO: ALAN SANTOS/PR
Leitura:

Não sou filólogo, tampouco linguista. Mas, vivi o suficiente para observar que palavras entram e saem da moda; mudam ou assumem significados diversos de apreço ou desapreço, dependendo do contexto.
Quando fui me tornando gente, meu pai e minha mãe, embora liberais, cuidavam da nossa personalidade em formação com rigidez. Dizia ela: “se não tomar chá em pequeno, não desentorta e será sempre mal-educado”. Ensinavam a respeitar e pedir a bênção aos mais velhos (não precisava ser
parente); ceder lugar, inclusive, às mulheres (arriscado, hoje, a levar uma reprimenda); não interromper quem estivesse falando e o irrenunciável mandamento: cultivar fraterna solidariedade com os mais humildes.

Provavelmente, não fui um aluno tão diligente por minha culpa, minha máxima culpa. Porém, a mais séria ameaça surgiu quando usei a palavra sacana. O mundo veio abaixo: “dobra língua e se repetir palavrão boto um ovo quente na sua boca”. Sei que ela jamais cumpriria. Em compensação, pelo
menos nos limites da casa, era um menino de boca limpa.

Na rua, as coisas mudavam de figura; no campo de pelada o “palavrão” que não significa apenas
palavra grande, mas palavra obscena que corria solta: “filho da puta, porra, puta que pariu, vá tomar
no... prefiro não escrever. O leitor compreenderá.

Com o tempo, as coisas foram mudando, os costumes e a linguagem também. Hoje um estádio inteiro saúda a mãe do juiz ou o manda para o mais recôndito órgão do corpo humano. Porra virou vírgula
ou exclamação, entre moças rapazes, e “carai” uma espécie de ponto final usado pela geração Z.
Estas breves considerações vêm a propósito do “caguei” do Presidente Bolsonaro, expressão
chula e afrontosa que ele usou para responder às perguntas da formuladas pela Comissão Parlamentar
de inquérito do Senado sobre questões suscitadas nos interrogatórios.

Não vou citar o variado repertório ferino e golpista que ele tem utilizado largamente. Desta vez, o ato escatológico dirige-se a um dos Poderes Constitucionais do Brasil. Vai além do “palavrão”, é um desrespeito ao decoro republicano ao revelar, como já revelado em outras ocasiões, grave desprezo pelas Instituições Democráticas.

O fato ocorre ao mesmo tempo em que as pesquisas de opinião demonstram uma tendência majoritária de rejeição a Bolsonaro. O Presidente/candidato espanta eleitores, espera que um milagre econômico o reeleja ou rasga a Constituição.

Mantido o quadro atual, a disputa de 2022 pode ocorrer numa competição entre “bocas sujas” na busca da Presidência. O Brasil não merece cruel destino.

Gustavo Krause é ex-governador de Pernambuco

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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