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Voto impresso: o jogo da manipulação continua

"O sucesso da campanha 'voto impresso auditável', apesar da derrota institucional, deve-se, em grande medida, ao uso de elementos próprios de manipulação da opinião pública. As reais intenções nem são assim tão veladas, mas o jogo da manipulação continua. Cai quem quer". Leia a opinião de Juliano Domingues

JULIANO DOMINGUES
JULIANO DOMINGUES
Publicado em 15/08/2021 às 6:08
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Roberto Jayme/Ascom/TSE
Brasil começou a utilizar urnas eletrônicas em 1996 - FOTO: Roberto Jayme/Ascom/TSE
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O voto impresso foi derrotado enquanto procedimento, mas não como estratégia de comunicação política. O discurso de seus defensores para sustentá-lo possui características exemplares de manipulação da opinião pública e, por isso, deve resistir e seduzir por um bom tempo.

A campanha do "voto impresso auditável" foi de outdoors e adesivos em veículos a projeto de emenda à Constituição (PEC 135/2019), pautou o debate público e motivou protestos de rua. É, portanto, um caso de sucesso em termos comunicacionais. Por isso, o "espírito" da proposta rejeitada e arquivada na Câmara dos Deputados deve continuar a rondar a política nacional.

Estratégias discursivas voltadas a influenciar o outro a agir têm um componente manipulador. Isso, em si, não é um problema. O aspecto pejorativo associado à estratégia da manipulação se deve ao uso de elementos específicos voltados à captura da opinião, em uma espécie de jogo de falsas aparências. Nele, o manipulador esconde suas intenções, enquanto o manipulado as ignora e se deixa levar, sem que haja espaço para reflexão crítica a respeito do tema em questão.

As ações adotadas para propagar a tese do voto impresso como antídoto para eleições fraudulentas seguem preceitos básicos dessa cartilha, com o intuito de persuadir o eleitorado. Nesses casos, as reais intenções do manipulador não são explicitadas, mas veladas ou apresentadas sob disfarces capazes de fazê-las parecer benéficas ao interlocutor. Exemplo disso são afirmações como "Essa não é a PEC do presidente Bolsonaro, essa não é a minha PEC, essa é a PEC de brasileiros que querem transparência e segurança nas eleições".

O emissor assume, ainda, uma posição de autoridade para legitimar seu projeto e impressionar o receptor, como em falas do tipo "Eu fui eleito no 1º turno. Eu tenho provas materiais disso". Ele também interdita opiniões divergentes com ameaças e dramatiza o discurso para atemorizar a audiência, como nas declarações "Sem eleições limpas e democráticas, não haverá eleição" ou, ainda, "Se esse método continuar aí, sem a contagem pública, eles vão ter problemas".

O sucesso da campanha "voto impresso auditável", apesar da derrota institucional, deve-se, em grande medida, ao uso de elementos próprios de manipulação da opinião pública. As reais intenções nem são assim tão veladas, mas o jogo da manipulação continua. Cai quem quer.

Juliano Domingues, cientista político, coordenador da Cátedra Luiz Beltrão de Comunicação da Unicap.

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

 

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