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As medalhas olímpicas falam

"Nosso honroso quadro de medalhas enviou um recado aos brasileiros: façam do momento um divisor de águas em relação à riqueza inexplorada da potência esportiva, aliando política pública consistente a um firme apoio da iniciativa privada". Leia a opinião de Gustavo Krause

GUSTAVO KRAUSE
GUSTAVO KRAUSE
Publicado em 15/08/2021 às 6:17
RAFAEL BELLO/COB
A ginasta Rebeca Andrade ganhou duas medalhas nas Olimpíadas de Tóquio - FOTO: RAFAEL BELLO/COB
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Cartola que me perdoe, mas as medalhas olímpicas falam e exalam. Exalam o perfume do sucesso no ideal de competir dignamente como apregoava o criador dos modernos jogos olímpicos Pierre de Frédy, Barão de Coubertin. Historiador e pedagogo, sonhava com o aperfeiçoamento educacional e a aproximação dos povos.

As medalhas falam sobre a origem mitológica e histórica da civilização grega e teve seu marco inicial da Era Moderna, em 1896. A cada quatro anos, renova o espírito olímpico no maior evento esportivo do Planeta.

A Olimpíada de Tóquio mandou mensagens com significados políticos. Até nossos dias, nenhuma superou o anúncio de derrota antecipada do nazismo e da falsa superioridade ariana, quando o atleta negro americano Jesse Owens, conquistou quatro medalhas de ouro na Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. A tragédia da II Guerra mundial ratificou a vitória de Owens no campo das batalhas.

Nosso honroso quadro de medalhas enviou um recado aos brasileiros: façam do momento um divisor de águas em relação à riqueza inexplorada da potência esportiva, aliando política pública consistente a um firme apoio da iniciativa privada.

Nordestinos, pardos, pretos, pobres e mulheres suaram ouro, prata e bronze e colocaram sobre o peito metais preciosos, improváveis, diante da situação social de irrelevância e exclusão em que vivem mergulhados.

As medalhas falam. Hoje é do domínio público a história de todas. Há um denominador comum: produtos do talento, vontade férrea, resistência e superação inacreditáveis.

O que dizer de uma medalhista de ouro, filha de dona Rosa Santos, empregada doméstica com seis filhos para criar e, sem dinheiro da passagem, Rebeca andava dois quilômetros de Vila Fátima, periferia de Guarulhos, ao Centro de Treinamento? O que dizer da recuperação de três cirurgias no joelho?

No caso de Rebeca, a medalha deu lições. Sensibilidade e versatilidade: misturou o funk do Baile da Favela com Bach; mostrou a alvura do belo e cativante sorriso; com a leveza da borboleta, alçou voos; venceu a condenação do destino à pobreza; suavemente pousou no solo da glória e da história.

Corpo e mente estavam sincronizados. Sem este equilíbrio, o esforço contínuo levado ao limite do esgotamento impõe severos efeitos emocionais. A grande estrela Simone Biles refletiu a grave sequela do estresse que sofreu. A desistência foi um alerta para a necessidade de apoio psicológico aos atletas.

Em Rebeca, a saúde mental estava em ordem: nove anos de terapia na busca do autoconhecimento.

Gustavo Krause, ex-governador de Pernambuco

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

 

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