ARTIGO

A inflação, se lixando para agruras acadêmicas, está aí, de volta

"Nosso país tem inflação maior para chamar de sua. Mas o povo certamente não acha a menor graça". Leia a opinião de Tarcisio Patricio de Araújo

Tarcisio Patricio
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Tarcisio Patricio
Publicado em 31/08/2021 às 6:00
MARCOS SANTOS/USP IMAGENS
Governo planeja furar teto de gastos para pagar auxílio de R$ 400 - FOTO: MARCOS SANTOS/USP IMAGENS
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Inflação é complexidade tamanha: múltiplas causas, e haja controvérsia. Clássica polarização: "monetarismo" vs. "estruturalismo" - conforme as vestes do debate latino-americano. O primeiro diagnóstico foca o lado monetário da inflação, prezando o excesso de moeda na economia ("inflação de demanda"). O segundo vê desequilíbrios estruturais no aparelho produtivo (setoriais, principalmente agricultura-indústria, mas não exclusivamente) e decorrentes pressões de custo, propagadoras de crescimento de preços. Em desvãos de má pedagogia, era como se as duas visões fossem absolutamente antípodas. Todavia, foi percebido que não era o caso. O economista Mario H. Simonsen já dizia, em artigo de 1985 (Revista de Economia Política, out-dez), que "o maior erro é considerar esses diagnósticos como mutuamente excludentes"; e punha inflação "inercial" como a visão estruturalista. Marca forte da época: vivíamos sob regime de correção monetária plena e os salários eram reajustados, semestralmente (!), pela inflação passada. "A inflação do ontem garante a do amanhã".

O debate segue, processando-se impactos cambiais, desequilíbrio fiscal, expansão monetária, desequilíbrios estruturais, mudanças de expectativas etc., e está consagrada a correta visão de que se deve recorrer a certo ecletismo para tratar de inflação. Ocorre que a inflação - se lixando para agruras acadêmicas - está aí, de volta. E não é só no Brasil. Dados da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) revelam aceleração inflacionária em diversos países (2018-2019-2020), tomado como base o índice de 2015. EUA: 105,9-107,9-109,2. G20: 104,9-108,5-111,4. Brasil: 116,6-121,0-124,8. Lê-se: inflação acumulada, desde 2015, de 5,9% para 9,2% nos EUA; de 4,9% para 11,4% no Grupo dos 20 mais importantes países; de 16,6% para 24,8% no Brasil. Significativa aceleração em todos, com o Brasil se destacando na grandeza. Nosso país tem inflação maior para chamar de sua. Mas o povo certamente não acha a menor graça. Basta ver o noticiário televisivo e explicações de economistas no YouTube para entender a dor sentida no bolso (e no estômago), gerada por acachapantes aumentos de preços de bens e serviços básicos (alimentos, habitação, energia, combustível). E ainda se aguenta chacota de supermercados, a exemplo de "promoções" de um produto em embalagem "econômica" (maior peso, ou maior número de unidades de um produto), a preço médio maior, por unidade, do que comprado em unidades separadas. Haja paciência... P.S. Errata - na crônica anterior, o período do citado IPCA acumulado em 12 meses é "08/2020 a 07/2021" e não "07/2020 a 07/2021". Distração das grandes. Minhas desculpas.

Tarcisio Patricio de Araújo, Eeonomista, professor aposentado da UFPE e Consultor.

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

 

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