ARTIGO

O grupo que enxerga em si próprio alguma faceta da personagem bolsonariana

"Uns por ouvi-lo vocalizar publicamente tudo aquilo que muitas vezes só em pensamento ousaram articular. Outros, por terem sido encorajados a externar o seu verdadeiro 'eu', num mundo onde o domínio do 'politicamente correto' amordaçava a expressão de conceitos e preconceitos". Leia a opinião de Ronnie Preuss Duarte

RONNIE PREUSS DUARTE
RONNIE PREUSS DUARTE
Publicado em 11/09/2021 às 6:21
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ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Ato a favor de Bolsonaro na Avenida Boa Viagem, Zona Sul do Recife - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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As atenções foram magnetizadas nos últimos dias por manifestações impactantes que arregimentaram uma multidão de pessoas pelo Brasil afora. Por aqui, desfilou na avenida uma turma bonita, bem nutrida, envergando orgulhosamente os símbolos nacionais. A animação lembrava (até pelo padrão cromático) a passagem do "Nana Banana" durante o saudoso Recifolia.

Aquele grande contingente era formado, sobretudo, por segmento da classe média que enxerga em si próprio alguma faceta da personagem bolsonariana. Uns por ouvi-lo vocalizar publicamente tudo aquilo que muitas vezes só em pensamento ousaram articular. Outros, por terem sido encorajados a externar o seu verdadeiro "eu", num mundo onde o domínio do "politicamente correto" amordaçava a expressão de conceitos e preconceitos. No fundo é a identificação que amalgama essa massa integrada por parentes, amigos e colegas próximos de quase todos nós.

Devemos atentar, contudo, para as consequências dos sinais da liderança. Dou o exemplo da minha filha que, desde pequenininha, amava o Pateta. De uns dias para cá, já adolescente, mudou. Está vidrada no Bolsonaro. No dizer de Stanley Hall, o pai da "Psicologia da Adolescência", trata-se de uma época de "tempestade e de tormenta". A rebeldia, a impulsividade, a necessidade de autoafirmação com enfrentamentos, o desafiar das regras sociais é algo muito próprio de tal fase. Talvez daí decorra a afeição dela pela personalidade presidencial, que às vezes parece adolescer na terceira idade.

Preciso confessar, contudo, que em casa os dias têm sido desafiadores. Digo isso porque, acompanhando o Presidente, minha filha passou a pretender a escolha das regras a serem seguidas. Hoje, recusa a farda na escola, dizendo que ninguém pode ser compelido a usar adereços (sejam máscaras ou a indumentária escolar). Também o cinto de segurança foi abolido: as regras de trânsito seriam de observância facultativa. O resultado insatisfatório nos exames foi recusado: os testes foram aplicados "on line", e ela exigiu a prova impressa. Também a disciplina vem sendo negaceada: ouvi, surpreso, que se nem o Supremo tem a autoridade imposta, comigo a obediência também seria opcional. Ontem, o exemplo arrastou de forma inusitada: descobri que a cozinheira estava devolvendo metade do salário à garota, que inaugurou a "rachadinha doméstica"!

Ronnie Preuss Duarte, ex-presidente da OAB-PE

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

 

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