ARTIGO

O conceito de "banalidade do mal"

"Em Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil, Hannah Arendt, acompanhando o julgamento do nazista Adolf Eichmann, preso em Buenos Aires em 1960 e levado para Jerusalém, elabora o conceito de 'banalidade do mal', a grande ameaça às sociedades". Leia o artigo de Dayse de Vasconcelos Mayer

DAYSE DE VASCONCELOS MAYER
DAYSE DE VASCONCELOS MAYER
Publicado em 12/09/2021 às 6:06
Notícia
REPRODUÇÃO DE VÍDEO/ZDF
A filósofa política alemã Hannah Arendt - FOTO: REPRODUÇÃO DE VÍDEO/ZDF
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Estou em recesso de jornais televisivos e virtuais. Um e outro se converteram em manuais de ciência política de cunho horizontal, com inclusão dos temas corrupção, desvios das instituições, trajeto atual da democracia, vazio do poder, voto e partidos políticos, poder dos juízes, mito, autoritarismo, populismo, grupos de pressão...

Optei por reler a obra de Hannah Arendt "Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil", combinação de jornalismo político e reflexão filosófica, onde a autora afirma a inaptidão dos homens para a punição do "mal radical".

As imagens televisivas recentes do 7 de setembro corroboram essa ideia.

Na obra citada, Arendt, acompanhando o julgamento do nazista Adolf Eichmann, preso em Buenos Aires em 1960 e levado para Jerusalém, elabora o conceito de "banalidade do mal", a grande ameaça às sociedades. Apenas uma pequena fração de "hommes des lettres" brasileiros revelam apreensão com tal realidade. Mas eles esquecem, como diria Mirabeau, que dez homens agindo em conjunto, podem fazer tremer cem mil separados uns dos outros.

Arendt deixou assente a impossibilidade de se passar uma borracha sobre as verdades históricas, caso da fascinação de muitos por Hitler, do horror dos campos de concentração, da política do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial... Não encontraremos, como é claro, nenhuma referência à "Torre de Londres e Bolsonaro". Afinal, no tempo em que a filósofa divulgou seu pensamento a situação no Brasil era diferente.

Outra questão curiosa é que Arendt jamais instituiu a diferença entre os conceitos de direita e esquerda, aspecto muito arraigado no pensamento brasileiro.

Na obra citada, Arendt analisa a impossibilidade de o homem conseguir situar-se no "espaço oco" entre o passado e o amanhã e o marasmo ou apatia existente no campo da ética, dignidade e honradez. O que mais sobressai na obra da cientista é a locução "banalidade do mal" expressão que poderia ser atribuída aos homens que divinizam o Governante e revelam indiferença pelo cumprimento da lei. Com isso, concorrem para a difusão da ideologia da violência e do ataque aos direitos humanos e para a conversão da truculência e bravata em metas anacrônicas ou retrógradas de poder.

Dayse de Vasconcelos Mayer, doutora em ciências jurídico-políticas.

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

 

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