Opinião

Quando a paixão é política

"Depois da euforia, veio o dia da razão: não teve golpe nenhum, nem estado de sítio, nem convocação do Conselho da República. Não teve a destituição do STF, nem a dissolução do Estado Democrático de Direito. E agora?". Leia a opinião de Priscila Lapa

PRISCILA LAPA
PRISCILA LAPA
Publicado em 13/09/2021 às 7:05
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MARCOS CORREA/PR
Quem teve tempo de largar suas obrigações cotidianas para acompanhar os fatos do Sete de Setembro teve a chance de assistir ao espetáculo da política brasileira, em sua versão trágica e de essência antidemocrática - FOTO: MARCOS CORREA/PR
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A política tem o poder de despertar as paixões humanas. Em sua versão 4.0, parece que, com ainda mais força, o ativismo digital leva as pessoas a expor sua forma de pensar, suas crenças, seus desejos, assim como sua ira, sua ânsia de arrancar de cena aquilo que lhes soa divergente. Apatia, definitivamente, não define os comportamentos eleitorais nestes novos tempos. Nem no Brasil. Quem teve tempo de largar suas obrigações cotidianas para acompanhar os fatos do Sete de Setembro teve a chance de assistir ao espetáculo da política brasileira, em sua versão trágica e de essência antidemocrática.

Amor à Pátria virou sinônimo de personalismo e messianismo. Só a ama quem segue o "messias". Houve choro emocionado pela suposta decretação do Estado de Sítio, anunciado pela via das notícias falsas, um dos principais ingredientes que regam as paixões políticas contemporâneas. Houve a apropriação dos símbolos nacionais por forças políticas que tratam o adversário como inimigo, assim como a mobilização de uma categoria de trabalhadores, os caminhoneiros, que, ao lado de lideranças religiosas, fizeram discursos inflamados pregando o início de uma nova era.

E o que desejavam os manifestantes pró-governo? Pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio de Digital, da Universidade de São Paulo, foram à Avenida Paulista ouvir as pessoas, que revelaram seus motivos para participarem do ato: pedir o impeachment de membros do STF (29%), defender a liberdade de expressão (28%), autorizar o presidente a agir (24%), implementar o voto impresso (12%) e pedir intervenção militar para moderar conflitos entre os poderes (5%).

O que marca o engajamento aos atos é sua origem: as pessoas estavam ali porque seu líder as convocou. Não se trata exatamente de um movimento orgânico, ainda que sempre tenham aqueles que, pelas suas convicções, compareceriam independentemente do chamado. Mais do que se fazer presentes, muitos tentaram se sobressair na multidão pelo seu nível de fidelidade ao que o presidente representa, em um evidente sintoma de paixão aguda.

Depois da euforia, veio o dia da razão: não teve golpe nenhum, nem estado de sítio, nem convocação do Conselho da República. Não teve a destituição do STF, nem a dissolução do Estado Democrático de Direito. E agora? O que teve foi o áudio do líder pedindo a desinterdição dos bloqueios realizados pelos caminhoneiros, seguido do aconselhamento a um político que é o retrato da velha política, culminando com uma carta que fala de excessos e pondera que as coisas não foram bem assim.

A exacerbação das paixões tem um preço. As decepções causam dor. Segue o jogo, alimentado por novas convicções e leituras próprias que levarão muitos a seguir em frente, mesmo que não saibam o que os aguarda amanhã.

Priscila Lapa, cientista política

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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