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Sérgio C. Buarque: Brasil viu a transmutação de um Bolsonaro golpista e arrogante num presidente humilhado

"Em dois dias de extrema tensão, o Brasil viu, perplexo, a transmutação de um Bolsonaro golpista e arrogante num presidente humilhado, divulgando uma carta escrita por Temer, desdizendo tudo o que propagou nos palanques e que, no fundo, constitui o seu nefasto pensamento". Leia a opinião de Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque
Sérgio C. Buarque
Publicado em 15/09/2021 às 6:06
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PAULO LOPES / AFP
Bolsonaro durante discurso na Avenida Paulista, em São Paulo, no 7 de setembro - FOTO: PAULO LOPES / AFP
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Ou foi o leão que miou? Em dois dias de extrema tensão, o Brasil viu, perplexo, a transmutação de um Bolsonaro golpista e arrogante num presidente humilhado, divulgando uma Carta à Nação, escrita por Michel Temer, desdizendo tudo o que propagou nos palanques e que, no fundo, constitui o seu nefasto pensamento. O discurso inflamado do dia 7 de setembro foi um ensaio de autogolpe, esperando provocar um grande tumulto na Esplanada dos Ministérios, incluindo ataque às instalações do STF e do Congresso Nacional. Provavelmente esta era a senha para sublevação de policiais e milicianos que o levaria à convocação do Conselho da República e implantação do Estado de Sítio. Felizmente, ele fracassou e se isolou mais ainda. Ele não teve força para rasgar a Constituição, não contou com as Forças Armadas que não parecem dispostas a seguir o alucinado presidente. Bolsonaro deu uma cambalhota, mas logo se dirigiu aos seus desorientados seguidores pedindo paciência, até que seus impulsos destrutivos voltem à ação. Não se trata de estratégia, no máximo, intuição política. Se a teoria neurológica de Roger Sperry estiver correta, o lado esquerdo do cérebro do presidente, responsável pela lógica e pela razão, nunca funcionou, deixando o lado direito, irracional e emocional, comandar seus movimentos e discursos.

Muita coisa ainda parece misteriosa e pouco explicada nos eventos destes dias de setembro. A mudança de discurso e de tom de Bolsonaro foi radical demais e não corresponde aos seus impulsos incendiários. As reações do STF e do TSE foram duras e contundentes, a crítica dos presidentes das duas casas do Congresso sinalizavam para uma possível ruptura do Centrão e risco de abertura de processo de impeachment. Mas não explicam o tamanho do recuo humilhante de Bolsonaro. Houve um alívio transitório das tensões políticas no Brasil e é possível que a sua fala mansa na Carta à Nação leve à uma desmoralização do "mito", diminuindo sua força eleitoral e sua capacidade de mobilização. A única certeza no meio de um futuro tão incerto é que não se pode confiar nas palavras falsas de Bolsonaro, numa milagrosa redenção democrática de um psicopata. E que não se deve subestimar sua capacidade de destruir a nação e a democracia brasileira. Tudo indica que a mobilização de 7 de setembro foi apenas um primeiro ensaio no seu projeto de implantação de uma ditadura no Brasil. Os democratas têm tempo agora para se preparar e desmontar suas iniciativas golpistas.

Sérgio C. Buarque, economista

 

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