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Após longo e tenebroso inverno, ela telefonou

"A emoção de quem recebe a ligação de um velho amor é muito forte e indescritível". Leia o texto de Arthur Carvalho

Arthur Carvalho
Arthur Carvalho
Publicado em 15/09/2021 às 6:13
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STEFAN KUHN/PIXABAY
"Achei melhor abreviar a conversa, pedi desculpa e desliguei" - FOTO: STEFAN KUHN/PIXABAY
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Após longo e tenebroso inverno, ela telefonou. A intenção teria sido dar parabéns pelo dia dos pais. Desculpa ou não, o motivo era o de menos - o importante era seu telefonema e ela sabe disso. A emoção de quem recebe a ligação de um velho amor é muito forte e indescritível. Uma coisa que mexe com o coração e o coração é o ninho de amor e sofrimento. Devemos renovar? Nada sei dessas coisas, mas quem anda atrás de amor e paz não anda bem, ensinava Luiz Carlos Paraná. Samba doído, magistralmente interpretado por Ângela Maria reza que Deus sabe bem quem errou de nós dois e dará o castigo depois, "o castigo a quem merecer". Dizem que quem ama maltrata, mas não quero seu mal. Nessas ocasiões, resta recordar os momentos felizes que passamos juntos e tentar esquecer os dissabores e amarguras. "As amargas, não".

Então, por que fracassamos? Segundo Dostoiévski há coisas que não devemos falar com as pessoas, os parentes, os amigos nem com nós mesmos. E ninguém consegue penetrar nos mistérios da alma humana. Ele mesmo tentou em os Irmãos Karamazov, não sei se conseguiu. Afinal, nas histórias de amor todos são iguais. Ataulfo Alves entregou os pontos em saudosa música gravada por Orlando Silva: "Errei, erramos." E pronto.

O telefonema prosseguiu, ela pergunta se ainda estou indo ao Jockey, digo que não; ao futebol, também não; àquele restaurante? "de vez em quando"; com quem? "Com os amigos de sempre"; O pianista ainda toca Besame Mucho quando você entra?" "Toca". A linha caiu ou ela calou? Ouço um barulho estranho, talvez soluços. Era tudo que eu não queria. Penso em desligar, mas evito magoa-la. Preferia não ter recebido esse telefonema. Ouvir sua voz era um misto de prazer e tormento. E me veio à memória a nossa viagem ao Rio, no transatlântico italiano Andrea C., a primeira discussão que tivemos, a noite inteira dançando bolero, as juras de eterno amor, as cenas de ciúme, sua beleza e inteligência, seu charme e elegância discreta. E achei melhor abreviar a conversa, pedi desculpa e desliguei.

Do alto da sua sabedoria e experiência de noventa e cinco anos, meu amigo Orlando Corrêa, disse, certa vez, com frase curta e simples, sem complicadas digressões metafísicas, que a mulher quando telefona pro homem, alguma coisa ela quer. Será, Wezeli? Rubem Braga receitou andar de bicicleta para curar dor de cotovelo. Planejo comprar uma e passear na Praça da Jaqueira mas desisto. Foi lá que nos conhecemos. Penso em tomar um uísque, mas resisto. Acender um cigarro, nem pensar.

Arthur Carvalho, da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP)

 

 *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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