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O centenário de nascimento de Dom Paulo Evaristo Arns e Paulo Freire

"Este setembro marca com cores intensas, e, ao fazê-lo, muito diz a quem se predispõe a escutar, o centenário de nascimento de dois dos maiores símbolos de doação ao próximo que temos: Dom Paulo Evaristo Arns e Paulo Freire". Leia a opinião de Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Publicado em 18/09/2021 às 6:15
INSTITUTO PAULO FREIRE
Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, no Recife - FOTO: INSTITUTO PAULO FREIRE
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Este setembro marca com cores intensas, e, ao fazê-lo, muito diz a quem se predispõe a escutar, o centenário de nascimento de dois dos maiores símbolos de doação ao próximo que temos: Dom Paulo Evaristo Arns e Paulo Freire.

A coincidência entre eles não se exaure nos seus prenomes. Os dois são pura saudade avultada depois do último dia 7 e o bom entendedor sabe bem porquê. Em um, morou a resistência ao arbítrio através da religiosidade voltada ao acolhimento; no outro, habitou a resistência através do fazer pensar criticamente. O cardeal de sorriso largo que, contrariando a própria Igreja, esteve ao lado dos socialmente discriminados e dos politicamente perseguidos, a contestar a ditadura. E o patrono da educação, cuja obra refutava a mera transferência de conhecimentos, apostando no diálogo entre professor e alunos, tendo por base as necessidades diárias reais dos últimos.

Para quem hoje sai às ruas a gritar pautas contra a democracia, fica o convite a que seja resistência à própria ignorância. Nunca é tarde.

Dom Paulo esteve em centros de tortura para reivindicar a liberdade de presos políticos. Dom Paulo revelou documentos que narravam essas violências. Dom Paulo chegou a encontrar-se com o general Golbery, principal estrategista do regime, fundador do SNI, a quem entregou um dossiê sobre 22 desaparecidos, junto com familiares das vítimas. Criou, ainda, a Comissão Justiça e Paz, responsável por proteger perseguidos, inclusive, de regimes autoritários de outros países da região.

Paulo Freire deixou lições que são igualmente manifestos de resistência, na defesa de um caminho de valorização da fala do aluno e da importância da escuta pelo professor. Por que será que, na atualidade, em certos espaços de poder, haja quem pregue atualmente o seu "expurgo"? Precisa mesmo explicar?

Homenagear ambos é muito o que certa vez poetizou Nietzche: "Depois que cansei de procurar; Aprendi a encontrar. Depois que um vento me opôs resistência; Velejo com todos os ventos". Por isso, desanimar nunca. Entregar os pontos jamais. Resistir sempre. Viva os dois Paulos!

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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