Opinião

Pulsões diárias

"As horas giram independente do querer, às vezes de um jeito, às vezes de outro, porém sempre a desencadear uma estrada que se renova instante a instante". Leia o texto de Fátima Quintas

FÁTIMA QUINTAS
FÁTIMA QUINTAS
Publicado em 06/10/2021 às 6:54
Artigo
Bruno /Germany/Pixabay
Não adianta esconder as emoções que surgem e ressurgem ao despertar do dia - FOTO: Bruno /Germany/Pixabay
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A cada dia explode um nascimento interior. Não adianta esconder as emoções que surgem e ressurgem ao despertar do dia. Ontem fui uma, hoje sou outra. As horas giram independente do querer, às vezes de um jeito, às vezes de outro, porém sempre a desencadear uma estrada que se renova instante a instante. Gestos espontâneos desabrocham em uma caminhada que não tem volta. Antes sugere o prosseguir — ir adiante com a esperança de novas perspectivas. E o mundo emerge em uma evolução tão dinâmica quanto a própria existência. Perspectivas acompanham o ser, um latejar que irrompe dentro de cada um.

Gosto de olhar a lua, há algo que me atrai no espetáculo da noite. Não é a primeira vez que externo amor pela dimensão do crepúsculo. O sol confunde o pensamento com excesso de clareza. Deixo-me encharcar pelos ruídos do entardecer. Sempre fui assim, mesmo quando criança. A mãe chegou a se preocupar diante do meu receio pela imensidão de luz. Tenho a alma quase exposta ao mundo. Estarei exagerando?

Creio que não. Tudo se recolhe lá dentro no aconchego das intimidades. Há clausuras que se multiplicam no meu jeito de viver. Fujo de todo e qualquer impulso de claridade. Fecho os olhos e me entrego à essência do que sou. Necessito de luares discretos e, às vezes, abstratos. O que não consigo avistar me convida a uma múltipla apreensão. O reservado, quase indefinido na lógica aparente, me atrai. Nada se perde em face da vontade de absorver os capítulos porventura enigmáticos. O explícito me
traz o enorme cansaço da precoce decodificação. O que não sei retém o oculto da vida.

Não consigo me entender; eis o grande mistério a ser desvendado. Quantas vezes retorno para encontrar-me lá atrás. Pouco importa a inexatidão do que digo, a verdade é que estou sempre buscando o que parece impossível. Urge explicações menos complexas. Serei capaz de alcançá-las? Creio que não. Mergulho na introspecção com o intuito de traduzir as veredas do enigma. Quantas vezes percorro esconderijos para além de mim? O silêncio me envolve porque nele deposito o que jamais direi. Será que terei coragem de conhecer-me por completo? Ledo engano. Vou e volto na mesma cadência musical. Quantas vezes receio retornar ao passado. No entanto, há uma atração que independe do querer. Então, estarei sempre entre o ir e o vir. Não me amedronto com o compasso do dia e da noite. O curso e o decurso correspondem ao resultado de uma vivência abstrata. Quantas dúvidas e poucas certezas! É a vida em pleno vigor ontológico. Debruço-me por inteiro nas interjeições que se avolumam a cada alvorecer. E vagarosamente a noite chega com o seu discreto cenário. Ouço o silêncio em profundidade e extraio as brumas que me são ocultas.

Fátima Quintas, da Academia Pernambucana de Letras

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