ARTIGO

A ilusão de Narciso e as pesquisas eleitorais

"Nem aquele, nem este, podem se dar ao luxo de serem Narcisos. A realidade não é uma bolha. O voto terá sempre consequências". Leia a opinião do advogado Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Publicado em 09/10/2021 às 6:00
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Roberto Jayme/Ascom/TSE
"A responsabilidade de quem elege é tão grande quanto a de quem é eleito" - FOTO: Roberto Jayme/Ascom/TSE
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Narciso, na mitologia grega, era dono de uma beleza estonteante, mas ao mesmo tempo era vaidoso e arrogante. Certa feita, após ter desprezado um semnúmero de pretendentes, apaixonou-se pelo próprio reflexo. Morreu de fome e sede à beira da fonte de água sobre cuja superfície via sua imagem refletida.

Pesquisas eleitorais podem causar igual efeito em quem as toma por verdades universais. Não raro acabam deturpadas em cantos da sereia de sedução de indecisos e de transformação de pessoas em objetos, a partir, não raro, de premissas dúbias ou do distanciamento de uma metodologia científica objetiva.

Mas é possível dissociar as pesquisas de uma cultura participativa onde o conteúdo signifique mais que a embalagem?

Há uma máxima do marketing segundo a qual "você é o que você mostra". Assim, quanto mais você aparece, melhor. A acolhida consciente do voyeurismo ao invés do cultivo de uma bússola moral na escolha do candidato em quem se pretende votar é uma opção válida de engajamento?

Em matéria de fevereiro de 2017 assinada por Víctor Lapuente, a edição eletrônica do jornal El País abordou esse dilema com a seguinte advertência: "O narcisismo projeta uma sombra tenebrosa sobre a democracia". Sim, porque, diluído o espírito público, o que a cada um toca como verdade é apenas aquilo que convém e tollitur quaestio.

Só que não. A disputa eleitoral precisa ter ética. As esportivas, idem. Até as crises. Nada é preciso ter de esconder. Mostrar-se por inteiro, proporcionar o comparativo. Jogar limpo. Por que será que deixamos de conversar sobre tudo isso? Como diz Márcia Tiburi (Revista Cult, UOL, 28/2/2018), "silenciamentos demonstram naturalizações. E certamente significam mais do que desinteresse".

De novo, Tiburi: "Em tempos de naturalização da manipulação, voltar a evocar a ética é o ato de inocência que nos falta para alterar o rumo da história".

A responsabilidade de quem elege é tão grande quanto a de quem é eleito. Nem aquele, nem este, podem se dar ao luxo de serem Narcisos. A realidade não é uma bolha. O voto terá sempre consequências.

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado

 

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