opinião

Escola e medo

"A escola é um lugar de saber, de encontro, de "libertação", mas também de "reprodução", de autoritarismo, de violência cultural: mas ela é também lugar do medo!" Leia a opinião de Flavio Brayner

FLAVIO BRAYNER
FLAVIO BRAYNER
Publicado em 12/10/2021 às 14:00
Notícia
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Escola Municipal Reitor Joao Alfredo, na Ilha do Leite - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Há um medo inerente a toda instituição: guardiã de ordens específicas (do pensamento, do social, das relações - com deus, com os outros, com o mundo), as instituições podem ser ameaçadas por agentes externos ou internos de desestabilização e para contê-los ela precisa do medo como mecanismo de auto-preservação: toda instituição tem medo. Toda instituição produz medo!

A escola é um lugar de saber, de encontro, de "libertação", mas também de "reprodução", de autoritarismo, de violência cultural: mas ela é também lugar do medo! Ainda ecoa nos meus ouvidos o grito de pavor que emiti quando minha mãe me deixou pela primeira vez na escola (Escola Modelo em João Pessoa), virou as costas e foi embora (ela me falou da dor que lhe provocara aquele gesto!), deixando-me num lugar hostil e com pessoas estranhas. Foi ali que tive minha primeira experiência do MEDO ESCOLAR. Que MEDOS a instituição escolar precisa enfrentar? Acho que em primeiro lugar o MEDO do que se passa lá fora, daí aqueles muros altos que impedem a visibilidade externa: para entrar e permanecer nela precisamos de exames, concursos e controles que nos autorizem a ficar. Pensar que a escola "prepara para a vida" (como se antes de "viver" tivéssemos que "aprender") é apenas uma forma de impedir a vida de entrar na escola: quando Paulo Freire disse do analfabeto que ele antes de ler a palavra escrita já fazia a leitura do mundo, ele subvertia os modelos educacionais e suas formas de controle da vida e do saber que vem da rua! A escola também tem MEDO da indisciplina, da subversão interna (havia no Colégio de Aplicação, dos anos 70, um "Chefe de Disciplina": o inesquecível Ivanildo!) e precisa adestrar os corpos com seus uniformes, seus gestos, suas modos de falar.

Mas, exatamente porque ela tem medo, ela precisa também provocar o medo: através do castigo físico (a palmatória de antigamente) e da humilhação (chapéu de burro); através do fracasso; do receio que tenho de não me tornar "alguém"; através do exame (a observação sistemática) ou através de seus professores tirânicos (medo até de alguns colegas violentos). Nenhuma instituição sobrevive sem o temor e sem provocar temor: a Igreja, o Partido, a Família, o Trabalho... e produzir o medo faz parte das formas psicossociais que inventamos para garantir a estabilidade das instituições.

O que chamamos de SUCESSO ESCOLAR é, entre outras, uma espécie de vitória sobre todos os medos! Gritei desesperado naquele primeiro dia. Venci meus medos. Tornei-me professor!

(Aos professores que um dia também tiveram medo)

Flávio Brayner, professor da UFPE

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