Opinião

Tempo de Exílio

"Estou em casa em pleno retiro da Pandemia. Ouço o silêncio que me habita, mas ouço também ruídos em abundância, os externos". Leia o texto de Fátima Quintas

Fátima Quintas
Fátima Quintas
Publicado em 13/10/2021 às 6:55
Artigo
Tumisu/Pixabay
Isolamento social devido à pandemia da covid-19 - FOTO: Tumisu/Pixabay
Leitura:

Passeio na varanda. Ando de um lado para o outro, espio a paisagem externa: uma pequena miragem reveladora do mundo. Estou em casa em pleno retiro da Pandemia. Ouço o silêncio que me habita, mas ouço também ruídos em abundância, os externos. Uma criança, no apartamento vizinho, diverte-se contando histórias para ela mesma. O rosto vibra com as entonações: ora de um jeito, ora de outro. Um espetáculo que comove. Ela sabe mais do que ninguém brincar com o mundo. Recolhida no patamar dos sonhos, não cessa de animar-se intimamente. Olha o céu, aponta para as estrelas e gargalha diante do silêncio imposto. De nada reclama, a sua fantasia a comove. Vai e volta no corredor da felicidade. Não presta atenção ao entorno, busca a si mesma. Transborda o que de melhor habita o íntimo. De repente, resolve narrar episódios por ela inventados. A ausência de parceiros parece dilatar a imaginação; afinal, o mundo se restringe ao seu escudo criativo. Senta-se, levanta-se, caminha depressa, devagar, desdobra-se em um vai e vem sem limites. O instante se concentra em sua plena força criativa.

Meu relativo prazer diminui à medida que percebo que a voz se ausenta. Então, tenho a sensação de que a exterioridade me toca, mas há tanta coisa a pensar! Invento imagens para atenuar a solidão. Tão profunda e duradoura. As mãos, quase imóveis, solidarizam-se com um corpo inativo. E, no entanto, crescem fantasias que abalam a interioridade. Tento enganar-me, recorro aos anseios que não existem. Há, sim, um momento de plena apatia. Estarei exatamente onde? Talvez no que há de mais escondido na alma. Fecho os olhos e permito-me alcançar o âmago da quietude. De ordinário, o silêncio me enriquece. Este não será diferente. Assim, permito-me vibrar, em intensidade secreta, o estado de espírito; brotam imagens difusas, palavras vãs, uma forte ansiedade por aplaudir o que em mim se passa. Entrego-me aos delírios da alma: mudo de expressão, o fôlego se amiúda nas ocultas ilusões. Há um desabafo que jorra do peito. Permito entregar-me à invenção do que sou.

Rejeito o tédio. Não me doo à mágoa vã. O tempo amenizará os delírios em um lento bambolear de intenções. Na varanda secreta, espio cadeiras, mesas, plantas. E a mistura do que me parece impossível acontece. Entre o vazio do corpo e os objetos circundantes, elevo-me na intenção de sonhar. Não desisto de ir adiante. Necessito do que quero e do que não quero. Todas as vozes me encantam desde que sejam inaudíveis. De repente, a varanda cresce como se o meu íntimo transbordasse em brumas desconhecidas. A ansiedade aumenta, quase um voo a atravessar a correnteza da existência. Recolho-me na ânsia de desabrochar-me. Estou inteira, na tentativa de conhecer-me por dentro. Falta pouco. Um segundo de paciência. E a explosão acontecerá em meio a tantas incertezas. Eis-me completa na capacidade de apegar-me ao verbo existir. De nada duvido, o externo renasce em total sintonia com a abstrata esperança.

Fátima Quintas, da Academia Pernambucana de Letras

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