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O pós-pandemia e a saúde mental

"Ainda é cedo para diferenciar o que são reações "esperadas" frente ao estresse causado pela pandemia e o que pode ser considerado um transtorno, por isso devemos ter cautela em querer pular para diagnósticos precipitados". Leia a opinião de Maria Fernanda Quartiero e Luciana Barrancos

Maria Fernanda Quartiero Luciana Barrancos
Maria Fernanda Quartiero
Luciana Barrancos
Publicado em 16/11/2021 às 7:13
Tumisu/Pixabay
As consequências trazidas pela pandemia mostraram que a negligência com a saúde mental vem de muitos anos e que precisamos ser proativos, se quisermos um futuro diferente - FOTO: Tumisu/Pixabay
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Em todo o mundo, a pandemia da Covid-19 representou um tsunami de mudanças que impactaram, significativamente, diferentes aspectos da vida. A reclusão social, a perda da rotina, o medo de ser acometido pela doença, o luto, as alterações nas relações de trabalho, com cargas horárias extensas e acúmulo de funções, dificuldades financeiras e de emprego. São todos alguns exemplos de motivos que têm levado ao esgotamento pessoal e profissional nesse período e que chamam a atenção para a necessidade dos cuidados em saúde mental a longo prazo.

A adoção de medidas de isolamento e protocolos de segurança sanitária afetaram não apenas as questões econômicas, mas também a saúde física, emocional e psicológica dos indivíduos. Dados colhidos pela Universidade de São Paulo (USP) mostram que o Brasil tem liderado o ranking de países que apresentam mais casos de ansiedade e depressão na pandemia do novo coronavírus, com índices de 63% e 59%, respectivamente.

Questões que já existiam se tornaram ainda mais visíveis e marcadas, especialmente em pessoas que experimentaram de fato a solidão, ausência da rede de apoio, como família e amigos, perda de empregos e luto. Nos ambientes de trabalho, alguns impactos que já aconteciam, como a "síndrome do impostor" (autossabotagem), passaram a se apresentar de maneiras diferentes, como o aumento dos casos de síndrome de burnout devido ao excesso de trabalho e falta de políticas de cuidados psicossociais efetivos.

É preciso ainda destacar a situação de pacientes infectados que sofreram enorme desgaste físico, emocional e psicológico em lidar com protocolos e sequelas da doença, e também de crianças e adolescentes que, em alguns casos, perderam seus pais e cuidadores, tiveram suas rotinas completamente alteradas, com aulas remotas, distância dos colegas e professores e a não convivência com amigos e familiares. Todos esses aspectos exercem enorme influência sobre a saúde mental, ou seja, sobre a qualidade de vida e bem-estar.

Ainda é cedo para diferenciar o que são reações "esperadas" frente ao estresse causado pela pandemia e o que pode ser considerado um transtorno, por isso devemos ter cautela em querer pular para diagnósticos precipitados. De toda forma, já falamos de uma "quarta onda de COVID", com impactos principalmente na saúde mental, que resulta dos efeitos colaterais deste período de isolamento social, como o aumento de ansiedade e depressão, de transtornos obsessivos compulsivos e obesidade, entre outros.

Mesmo que a discussão sobre a importância da saúde mental tenha sido fortemente pavimentada no último ano, fatos como esses citados suscitam a necessidade de ampliar o olhar para o tema e construir diálogos entre sociedade civil, poder público e setor privado para institucionalizar o debate sobre saúde mental na era pós-pandemia.

As consequências trazidas pela pandemia mostraram que a negligência com a saúde mental vem de muitos anos e que precisamos ser proativos, se quisermos um futuro diferente.

Maria Fernanda Quartiero e Luciana Barrancos, do Instituto Cactus

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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