ARTIGO

Os descompassos observados no mercado de trabalho

"O desafio é fazer convergir as necessidades das empresas com a qualificação profissional das pessoas. Os sistemas de educação básica e de formação profissional têm que estar focados nas mutantes necessidades das empresas". Leia o artigo de Jorge Jatobá

JORGE JATOBÁ
JORGE JATOBÁ
Publicado em 14/12/2021 às 6:00
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
"A melhor política de emprego é o crescimento econômico." - FOTO: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Leitura:

A recessão induzida pela pandemia se sobrepõe a velhos problemas estruturais que inibem o crescimento econômico e agravam a pobreza e a desigualdade. Uma das consequências da crise sanitária foi produzir choques de oferta e de demanda com impactos sobre o mercado de trabalho. De um lado, observou-se uma retração na oferta de trabalho medida pelo percentual da população economicamente ativa (força de trabalho) em relação à população em idade de trabalhar (14 anos e mais). Essa taxa caiu de 61,7% no trimestre terminado em fevereiro de 2020, portanto antes da pandemia, para 58,6% no trimestre terminado em agosto de 2021 (IBGE-PNAD Contínua). Essa menor oferta se deu por medo de contaminação com o vírus e pela menor chance de conseguir trabalho em meio a perdas de milhares de empregos e a interrupção abrupta dos circuitos de geração de renda no setor informal. Pelo lado da demanda, entre fevereiro de 2020 e setembro de 2021, a ocupação diminuiu 1.8% e o número de pessoas buscando ativamente trabalho aumentou 6,7%. Nesse período o número de pessoas empregadas com e sem carteira declinou, respectivamente, em 3,7% e 4,1% e o número de empregadores caiu 12,8%. Além de retomar o crescimento econômico com mais vigor, o que poderia ser feito, em termos de políticas públicas, para recuperar com mais rapidez o nível de ocupação pré-pandêmico? A resposta é eliminar os descompassos observados no mercado de trabalho.

A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso, como o home-office, o e-commerce, a automação e o uso da inteligência artificial, entre outras transformações de base digital, que impactam o mundo do trabalho. Isso gerou assimetrias. De um lado, surgiram novas oportunidades de emprego que para serem aproveitadas exigem um perfil de mão-de-obra distinto daquele observado comumente no mercado de trabalho. Verifique-se, por exemplo a dificuldade das empresas do ecossistema de tecnologia da informação e da comunicação (TIC) de Pernambuco em preencherem as milhares de vagas disponíveis. De um lado, temos postos de trabalho não preenchidos e, de outro, temos trabalhadores sobrando no mercado. Esse descompasso não acontece somente nos setores de TIC. Ele ocorre também, com menor intensidade, em outros setores da economia. A outra assimetria se materializa no descompasso entre a oferta de educação básica, sobretudo a de nível médio, e a de educação profissional pública e privada, e a demanda do setor produtivo que exige habilidades e competências frequentemente não encontradas entre os que buscam trabalho. O desafio é fazer convergir as necessidades das empresas com a qualificação profissional das pessoas. Os sistemas de educação básica e de formação profissional têm que estar focados nas mutantes necessidades das empresas.

Jorge Jatobá, doutor em economia

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

Comentários

Últimas notícias