ARTIGO

Um exemplo a ser seguido para o Centro do Recife

"A Praça do Marco Zero é a arquitetura da desconstrução para inovar, valorizando, em harmonia, a natureza e o conjunto edificado". Leia o artigo de Paulo Roberto Barros e Silva

PAULO ROBERTO BARROS E SILVA
PAULO ROBERTO BARROS E SILVA
Publicado em 11/01/2022 às 6:00
FILIPE JORDÃO/ACERVO JC IMAGEM
Marco Zero, no Bairro do Recife - FOTO: FILIPE JORDÃO/ACERVO JC IMAGEM
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Os olhares do Recife se voltam para o Centro da Cidade. Indaga-se o que fazer para mudar o que lá apodrece, e ainda seja capaz de renascer. Por oportuno, lembro uma ação concreta - a Praça do Marco Zero. Em 1999 recebi uma demanda do Prefeito Roberto Magalhães, através de Celecina Pontual: identificar uma intervenção urbana que demarcasse o evento da virada do milênio - a chegada do ano 2000. Convidei o arquiteto Reginaldo Esteves para "pensar junto", encontrar o lugar e propor uma intervenção urbana renovadora.

A procura resultou na escolha de uma pracinha denominada Barão do Rio Branco, assentada na Ilha do Recife. Descobrimos a "janela para o mar" que lá estava, e na sua frente o Rio Capibaribe, os arrecifes naturais e o Oceano Atlântico. O olhar para o futuro do novo século fez a viagem ao que se vê hoje. Ali nasceu o esboço do que seria o projeto de uma praça cívica - marco de encontro de faces urbanas singulares.

Era preciso ir além. Ampliar o seu território, atravessar o rio e plantar esculturas sobre os arrecifes, defronte agora de uma arcada de passagem - o Oceano e a cidade. Assim foi incorporada ao projeto da praça a essência da arte pernambucana, Francisco Brennand, saindo da Várzea para o molhe natural de arrecifes, com esculturas e a Torre de Cristal. Mas a praça podia ir além, com Cícero Dias vindo de Paris para desenhar a Rosa dos Ventos.

Um grupo informal foi criado para modelar o projeto de captação de recursos através da Lei Rouanet. Ao grupo foram incorporados Gustavo Krause, a arquiteta Beth Araruna, a curadoria paulista de Radha Abramo e o arquiteto Fernando Borba, do Instituto Arqueológico. Com a Lei Rouanet, o projeto denominado "Eu vi o mundo, Ele começava no Recife" recebeu o apoio dos empresários pernambucanos.

Na pracinha original existia uma caixa de ferro pintada de vermelho e batizada pelos navegadores de regatas como Marco Zero. Reconhecemos a força e simplicidade do nome naquele lugar. A Cícero Dias coube inserir a marcação em bronze das coordenadas geográficas do Recife no Planeta Terra. E assim foi. E o batismo da Praça nasceu pela vontade de muitos, pela resistência de alguns e pela essência da intervenção - Cícero, Brennand, a janela para o mar, o encantamento da Torre de Cristal, a praça cívica, o contorno semicircular dos edifícios no entorno, e, ao centro, a Rosa dos Ventos.

A Praça do Marco Zero é a arquitetura da desconstrução para inovar, valorizando, em harmonia, a natureza e o conjunto edificado. Consagrando mais que a data comemorativa da virada do milênio, e sim o encontro/convergência de pessoas e instituições objetivando o resgate permanente do processo de evolução urbana no Recife. Esse é um exemplo a ser seguido para o Centro da Cidade.

Paulo Roberto Barros e Silva, arquiteto

 

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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