ARTIGO

Um pouco do que não sei

"Com um certo jeito, o cotidiano vai ensinando as necessárias adequações. E o futuro se instala com múltiplas doses de conhecimento". Leia o texto de Fátima Quintas

Fátima Quintas
Fátima Quintas
Publicado em 12/01/2022 às 6:00
HERMANN TRAUB/PIXABAY
. - FOTO: HERMANN TRAUB/PIXABAY
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Meu computador pifou. O marido, com sábia inteligência tecnológica, conseguiu adaptá-lo, na medida do possível, a uma formatação menos complexa. Curioso como as mudanças se tornam tão irreversíveis, quase uma ordem imperativa sem prescrições de contornos. A vida é feita de tantas mutações que, às vezes, penso na difícil possibilidade de acomodação aos novos tempos. Com um certo jeito, o cotidiano vai ensinando as necessárias adequações. E o futuro se instala com múltiplas doses de conhecimento.

Sou antiga. Gosto de ler em livros de papel, sentir o piano tocando com mãos hábeis e prudentes, olhar os quadros na parede, belos, modernos, antigos, todos a solicitar uma tradução única e inapelavelmente individual. Nada mais precioso do que subjetivar a realidade, como se dela emanasse o sumo de cada um. Sou única, bem sei, na interpretação do instante que de mim se apodera. Não necessito de bruscas transformações; há, sim, um apego ao passado, enorme dedicação às recordações, como se o átimo do segundo refletisse o que foi, o que é, e o que será. Debruço-me no ontem com o prazer de repensar a vida. O menor momento possui uma intocável identidade. Abraço as horas possuída da certeza de jamais decifrá-las. O ato de prosseguir alegra-me na medida em que aumenta o inventário de cada um. Urge acumular ideias, somente assim serei capaz de reativar o pensamento. Lembranças guardadas no íntimo formam o nosso Eu. Que seria de mim isenta das antigas fabulações? Ainda bem que a memória abraça o nosso Ser. Serei sempre devota de um passado que me alimenta.

Hoje de um jeito, amanhã de outro, com o intuito de fortalecer o ato da renovação. Quantas serei em meio a uma multiplicidade de enigmas? Nunca saberei. Melhor assim. Nada mais produtivo que alimentar aquilo que se desconhece. Na verdade, represento o mínimo de um amplo espectro. Os sonhos igualmente se repetem para ofertar identidade ao que parece oculto. Qualquer explicação se desfaz diante da complexa existência. Jamais serei capaz de decifrar-me por inteiro. Melhor assim, incompleta e verdadeira.

Fátima Quintas, Academia Pernambucana de Letras

 

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