ARTIGO

A menina e o cachorrinho

"Acordei com os gritos aflitos de uma menina correndo atrás de seu cachorrinho que havia fugido."

ARTHUR CARVALHO
ARTHUR CARVALHO
Publicado em 12/01/2022 às 6:11
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Dizia Antônio Maria, em crônica no jornal O Globo, em 4 de dezembro de 1956, que se escreve todo dia, mas que somos cronistas, no máximo, uma vez por semana, e que nossa capacidade de captar o assunto é muito variável. E complementa: "Às vezes, pode virar um bonde na rua, esmagar cinquenta pessoas e o cronista não consegue dizer mais que o bonde virou e cinquenta pessoas foram, infelizmente, esmagadas. De outras vezes, não. Sobre simples passarinho que salta de um galho para outro e coça a asa, com a ponta do bico, escrevem-se laudas e mais laudas. O assunto é, portanto, a ressonância interior de um acontecimento qualquer em volta de nós.".

Pois acontece que hoje, de manhã cedo, acordei com os gritos aflitos de uma menina correndo atrás de seu cachorrinho que havia fugido. Eram gritos lancinantes de dor e desespero: "Meu cachorrinho fugiu! Meu cachorrinho fugiu!". E corria, esbaforida, atrás de seu cachorrinho, pedindo a ajuda dos que ali passavam. E chorava como uma desvalida. Mas, como ainda era muito cedo e dia de semana, as pessoas que ali passavam eram trabalhadores humildes, mais preocupados em não chegar atrasados em seus compromissos. E a menina dobrou a esquina da Av. Santos Dummont com a Rua Amaro Coutinho e continuou correndo atrás de seu cachorrinho, sem ajuda de ninguém.

Por ela, passou o rapaz do cuscuz, calçando velhas e cambadas sandálias Havaianas. Apitava uma pequena gaita e nem olhou para a menina do cachorrinho. A verdade é que ninguém se comovia com o sofrimento da menina do cachorrinho. Mas ela continuava correndo e clamando por socorro, para que alguém, de alma boa e generosa, compreendesse seu drama e conseguisse capturar seu cachorrinho de estimação. Sua esperança, agora, era o gari que recolhia o lixo nos caminhões, mas ele não lhe deu a menor atenção. Ela foi em frente, já quase sem força, as pernas bambas, quase caindo, desesperada. Dirão que há dramas piores - e certamente há. Mas cada um sabe o tamanho de sua dor, e temos que respeitar a dor alheia. Faço votos de que a menina pálida e magrinha encontre seu cãozinho para seu coração sossegar neste começo de 2022. Ainda segundo o autor de "Ninguém me ama", há momentos, na vida, em que a gente não consegue escrever senão coisas tristes. É o caso...

Tendo perdido de vista a menininha do cachorrinho, só me restou tomar o café matinal - e, se o leitor achar que eu vou escrever "café reforçado", não perca seu tempo. Meus cafés matinais costumam ser os mais simples: uma xícara de café com leite, inhame ou macaxeira e um ovo mexido.

Arthur Carvalho, Academia Recifense de Letras - ARL

 

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