OPINIÃO

Impossível escapar da emoção que contamina na Paixão de Cristo em Nova Jerusalém

A monumentalidade da obra está à vista para o espanto de todos que a visitam. Palavras são insuficientes para descrevê-la. Arrisco, pois, a falar não do que se vê, mas do que se sente.

GUSTAVO KRAUSE
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GUSTAVO KRAUSE
Publicado em 18/04/2022 às 10:35
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Em Pernambuco, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém voltou a ser encenada em 2022, após 2 anos suspensa - FOTO: Divulgação
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Os cinquenta quilômetros do percurso que separa Caruaru do Teatro de Nova Jerusalém, em Fazenda Nova, distrito do município do Brejo da Madre de Deus, são ladeados de terra seca, esturricada, paisagem típica do semiárido. Nela, o heroico mandacaru, com longos e verdes braços, clamando pelo milagre da chuva, convive com o testemunho mudo do rebanho de pedras, rochas, desafiando a força transformadora da capacidade humana.
Pois bem, do sono das pedras nasceu o sonho de construir o que se tornou o maior teatro ao ar livre do mundo: uma obra monumental com nove palcos, setenta torres, cercada por uma muralha de 3.500 metros.
Por mais de quatro décadas, convivi com a obstinação do idealizador: Plínio Pacheco, autêntico visionário, senhor do sonho e operário da gigantesca obra. Pele alva, tostada pelo sol das longas jornadas de trabalho, o franzino Plínio Pacheco mais parecia o nordestino teimoso do que um gaúcho dos pampas, berço de nascença.
Ao lado de Diva, uma verdadeira “Diva” no ambiente cultural, artistas talentosíssimos e incansáveis trabalhadores, atravessou um deserto com coragem e abnegação. Ao final, legaram a Pernambuco e ao mundo, o magnífico Teatro que, por 54 anos, abrigou a encenação da “Paixão de Cristo de Nova Jerusalém”.
A monumentalidade da obra está à vista para o espanto de todos que a visitam. Palavras são insuficientes para descrevê-la. Arrisco, pois, a falar não do que se vê, mas do que se sente.
Cada polegada de areia, pedra e sol exalam o sagrado, o profano, o místico, o belo, o trágico, o poético, o épico e o transcendental. Impossível escapar da emoção que contamina e envolve a multidão de espectadores/atores.
A figura austera de Plinio, uma fruta fina de casca grossa, assumiu lições da poética cabralina “Educação Pela Pedra” na “sua carnadura concreta”, quando percebeu que “(de dentro para fora), a pedra, uma pedra de nascença entranha a alma”.
Se em Drummond “no meio do caminho tinha uma pedra”, para Plinio, as pedras foram o próprio o caminho de uma sólida criação com profundo significado.
O ator que interpreta Jesus afirmou: “Amigos, chegou a hora de purgar os males dos vilões que andei fazendo”. Gabriel Nunes pressentiu a faísca redentora do Personagem e, como ator consagrado, dividiu com a plateia.
Em tempos de violência, o espetáculo reitera a vitória do amor sobre o ódio e celebra a ressurreição frente ao horror da pandemia. A vida do Teatro segue sob a liderança de Robson Pacheco.

Gustavo Krause, ex-governador de Pernambuco

 

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