OPINIÃO

Ataque ao Fortaleza expõe a barbárie disseminada, amedronta a sociedade e substitui a paixão clubística pelo medo generalizado

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GUSTAVO KRAUSE

Publicado em 23/02/2024 às 12:56
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Por Gustavo Krause, ex-governador de Pernambuco

Assim começavam os contos infantis que as babás, avós, pais, usando a tradição oral, transmitiam uma espécie de acalanto para as crianças. Era o preâmbulo do sono que prendia a atenção e estimulava a imaginação das crianças. Em geral, os enredos incorporavam uma disputa entre o bem e o mal, a bondade e a malvadeza, o belo e o feio, findando sempre com a mensagem que incorporava o prêmio de “uma felicidade para sempre”.

Na origem, está a obra do contista Gonçalo Fernandes Trancoso (1515-1596) Contos e Histórias de Proveito e Exemplo que competia com Os Contos da Carochinha de autoria de Figueiredo Pimentel (1869-1914) enriquecida com as narrativas orais, criativas, inspiradas que brilhavam nos olhos infantis que logo mergulhavam no sono reparador.

Para além da literatura e da tradição oral, incorporou-se à cultura brasileira da esperteza o conto-da-carochinha, mentira tão bem contada que recebe o crédito de verdade.

Pois bem, sobre o que vou falar começa como um “conto”, mas não é obra de ficção; é uma triste verdade: Era uma vez um país do futebol chamado Brasil.

O ponto de partida é a Copa do Mundo de 1950.

O Brasil precisava mostrar ao mundo que no Maracanã, gigantesca obra de engenharia, o gramado receberia os pés mágicos de um time que escrevia com os pés a poesia do melhor futebol do mundo.

Terminou em tragédia o que seria a demonstração de que não éramos, apenas, seres exóticos da terra do samba, do carnaval, encravados numa enorme fazenda exportadora de café, bonita por natureza e abençoada pela majestade divina do Cristo Redentor.

No vale de lágrimas, o pecado da soberba afogou o talento do time e atribuiu a culpa perpétua e injusta ao goleiro negro chamado Barbosa.

O curioso é que entre a bola e o Brasil sempre houve uma relação carnal. Porém, no futebol, a bola pune quem não a trata bem dentro e fora do campo.

No campo, o jogo que nasceu eurocêntrico, branco, imperialista e elitista foi sendo assimilado pelo trópico, saindo das mãos do paulista Charles Miller (1874-1953) para, enfrentando preconceitos persistentes, absorver a ginga da periferia urbana, pobre, mestiça e negra (a obra de Mario Filho O Negro no Futebol Brasileiro é uma referência sobre o fenômeno do racismo no futebol).

Fora de campo, a gestão dos clubes e das entidades organizadoras padeciam de amadorismo, ineficiência e, muitas vezes, de condutas eticamente questionáveis.

Apesar das sérias dificuldades, o resgate de 1950 foi uma epopeia escrita a partir de improvável conquista. O título de 58 espantou o mundo e, no México de 1970, a morada definitiva da Taça Jules Rimet passou a ser o país do futebol, sob o longo reinado do insuperável Pelé, estrela mais brilhante de todas as gerações de futebolistas.

Já transformado no maior espetáculo da terra, mais dois títulos mundiais ratificaram o orgulho do país do futebol até que o pentacampeão mundial sucumbiu a outra tragédia: a humilhante derrota do Brasil para Alemanha numa final em casa por 7x1 (2014).

Quem teve o privilégio de testemunhar todo este percurso, por mais esforço que faça, não encontra a fórmula salvadora do futebol de baixa categoria a que chegamos, até porque as múltiplas causas estão entrelaçadas e são estruturais.

Curiosamente, fomos vencedores apesar de gestões extracampo desastrosas. Porque éramos diferenciados no futebol jogado, dirão, com razão, os analistas profissionais. Agora, não somos mais. E a revolução tecnológica associada à globalização capitalista transformou o futebol num negócio em escala bilionária. Mudou tudo dentro e fora do campo. Paramos no tempo.

Sem cair na tola tentação simplista, seguramente, destaco a causa mais profunda da situação dos clubes brasileiros: a ausência de uma sólida política de formação de atletas.

Não à toa, Ferran Soriano, autor do livro “A bola não entra por acaso” (Ed. Princípio, 2013), um dos artífices da grandeza do Barcelona, membro da equipe vitoriosa do Manchester, hoje CEO do City e integrante da atual realidade do Bahia, ressalta a gestão de recursos humanos, a partir dos 12 anos, e a ênfase no processo de recrutamento, formação e compensação.

Mais um sinal de alarme para a decadência do nosso futebol: eliminação para as Olimpiadas de Paris. Nação que negligencia a educação na primeira infância pouco pode esperar da visão estratégica dos dirigentes de clubes e das entidades organizadoras do futebol.

Driblando nerds e saudosistas, Tostão, craque na bola e nas letras, dá um show de realismo: “O futebol moderno é uma mistura do passado e do presente”.

Sem essa lição, vamos seguir exportando jovens talentos e importando sucata, a balança comercial do fracasso da nação que “era uma vez, o país do futebol”.

Para agravar, a explosão de bombas da violência social na quarta-feira, dia 21, no Recife, ferindo os atletas do Fortaleza, expõe a barbárie disseminada, amedronta a sociedade e substitui a paixão clubística pelo medo generalizado.

Por fim, desafia todos os responsáveis pela segurança pública para, em conjunto, enfrentar o crime e criar um ambiente de convivência pacífica.

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