Conversas de 1/2 minuto (33) - Escritores

Mais conversas de meio minuto, hoje só com escritores, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Aproveitem, portanto, a leitura....

Publicado em 26/07/2024 às 0:00 | Atualizado em 26/07/2024 às 11:13

ALFREDO GONÇALVES, alfarrabista. Da Nova Eclética, na Calçada do Combro (Lisboa). Por seu intermédio, consegui uma primeira edição de Os Lusíadas. E por mera curiosidade perguntei, ao livreiro, quanto custaria uma d'El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha, de Cervantes, primeiro (1605) e segundo (1615) livros. Ele

- Se estiver interessado, sr. dr., vai ter que disputar, que outro cliente já me pediu isso.

- Qual português deseja um livro assim?, amigo.

- Não é português não, é mexicano.

Logo pensei em Carlos Slim (o sobrenome era Salim, até começar a fazer negócios nos Estados Unidos), que já foi o homem mais rico do mundo. E, ainda hoje, é um dos.

- O primeiro nome desse cliente, Alfredo, por acaso seria Carlos?

- Infelizmente, para o sr. dr., sim.

ARIANO SUASSUNA, da ABL. Naquela manhã, Francisco Brennand saiu do Engenho São João e foi pegando amigos pelo caminho. Ariano (que me contou essa história), Rua do Chacon; e Marcelo Carneiro Leão, Avenida Rui Barbosa. Foram, aos Manguinhos, tomar vinho de missa com Dom Coca-Cola - Carlos Coelho, arcebispo de Olinda e Recife (1960-64), desde que substituiu Dom Antônio de Almeida (1951-60). Depois dele veio Dom Helder (1964-1985), que não bebia. No fim da tarde, sem mais garrafas disponíveis, arremataram a programação com um sorvete no Gemba. Chegando em casa, na volta, Marcelo se vira para Ariano

- Agora você, que é escritor, invente uma mentira mais convincente que a verdade. Porque cheio de álcool, como estou, se disser a Hilda que estava conversando com o bispo, e tomando sorvete, ela não vai acreditar.

AURÉLIO, arquiteto carioca. Fim de conferência, na Academia Pernambucana de Letras, me perguntou

- O senhor é desembargador?

- Não.

- Quem é o senhor?

- "Não sou nada".

Na esperança de que reconhecesse, na resposta, o primeiro verso da Tabacaria de Pessoa. Em vão.

- Nem acadêmico?

- Taí, sou.

- Daqui?

- Também daqui.

- E do Rio?

- É.

- Da Academia Carioca de Letras?

- Não.

- Se não, sobra só a Brasileira.

- Pois é.

- O senhor é de lá?

- Sim.

- Tem certeza?...

BOLIVAR LAMOUNIER, escritor. Ele próprio me contou. Precisava falar com alguém da Casa Ruy Barbosa (Rio) e pediu, à jovem telefonista de seu Instituto,

Ligue pra Ruy Barbosa.

Pouco depois

Doutor, uma tragédia. A mulher que atendeu informou que o Dr. Ruy morreu.

Ele, contendo o riso,

E, agora, vai fazer o quê?

Fique tranquilo. Vou pedir os telefones da família e ligar, para todos, informando que o senhor mandou pêsames.

CELSO FURTADO, economista. Reunião marcada em seu apartamento da Conrado Niemeyer. Uma ruazinha tranquila de Copacabana que se toma, subindo a República do Peru, até quase o morro. Marcou 5 da tarde - "Eram las cinco en punto de la tarde... Eram las cinco em todos los relojes", como no verso de Lorca em homenagem ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías, morto em um triste dia de agosto de 1935. Cheguei antes da hora, não quis subir e tive tempo de ler três inscrições pintadas, com a mesma letra, no asfalto em frente a seu edifício. Duas mais velhas:

- Lídia, nosso amor é mesmo impossível. Adeus, querida. Sempre teu, João.

- Lídia, penso que me enganei. Aposte em nosso amor. Liga, Lídia. Por favor.

E a terceira, mais recente,

- Pô, Lídia, três meses e nenhum telefonema?

Sem assinaturas, as duas seguintes, mas a mesma letra. Mensagem para moradora do edifício, com certeza. Já no apartamento, olhando para baixo de seu terraço, dava para ler aquelas frases escritas na rua. E perguntei, a Celso, como iria findar aquele amor impossível.

- Tem jeito não, é mais fácil consertar o Brasil.

Continua na próxima página

 

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