PT NO PODER

Entre o negacionismo e a demagogia

Como em gestões anteriores no Planalto, o partido do presidente Lula faz de conta que não governa com o Centrão, e ataca a política econômica oficial

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JC

Publicado em 10/12/2023 às 0:00
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A chamada dissonância cognitiva acomete pessoas que não querem acreditar na realidade, e disfarçam as próprias crenças de modo a permitir a manutenção de discursos desmentidos à luz do dia, pelos fatos – e até por outros discursos, no caso de políticos do mesmo partido, sobretudo quando no exercício denunciatório do poder. Governar é fazer escolhas que podem contradizer posturas típicas de quem não está no governo, mais à vontade com o descompromisso e a incoerência. No caso do PT, o negacionismo cognitivo é recorrente desde a época do mensalão na primeira gestão de Lula no Planalto, momento de quebra do encanto para grande parte da esquerda brasileira, aproximadamente duas décadas atrás. De lá para cá, o pragmatismo se apurou, e a repetição de negativas contraditórias vem alimentando narrativas que oscilam entre a ilusão patológica e a demagogia premeditada para manter espaços junto ao eleitorado de oposição, apesar da ocupação do poder e do desfrute irrestrito de suas benesses.
Reinstalado há um ano no governo federal, pela quinta vez, e de braços mais dados que nunca com o Centrão, o PT se faz de inocente e mantém a surrada cantilena com críticas ao grupo de parlamentares com os quais Lula conta para tocar o governo, sem qualquer cerimônia ou escrúpulos. Em declaração oficial após encontro do partido, o PT também aproveitou a oportunidade para se enxergar – e se mostrar, de modo enganoso – do lado de fora, atacando a austeridade fiscal defendida por ninguém menos que o petista candidato à presidência da República na eleição anterior, Fernando Haddad, que atualmente chefia o Ministério da Fazenda com todo o aval de Lula. A quem o PT e sua cúpula pretendem, com tamanha desfaçatez, enganar? E por que?
Chamar a meta zero de Haddad de “austericídio fiscal”, como consta na resolução aprovada pelo partido, é confrontar a liderança do ministro da Fazenda e questionar sua autoridade, legitimidade e a direção da política econômica. Se a resolução tem o aval de Lula, melhor seria demitir o amigo e poupá-lo de novos constrangimentos. Se não tem, caberia uma demonstração de apoio público, e de discordância da ala do partido que fala e reclama em seu nome. De acordo com o documento, as “forças fisiológicas e conservadoras” são “fortalecidas pela absurda norma do orçamento impositivo” e “exercem influência desmedida sobre o Legislativo e o Executivo”, de tal maneira que conseguem “deformar a agenda política vitoriosa na eleição presidencial” do ano passado.
Fica a impressão de que Haddad faz parte do fisiologismo, ou aceita o jogo conservador, conforme qualificado pelos petistas, servindo na linha de frente do atraso e da sabotagem ao governo. Como se fosse um agente infiltrado de forças opositoras. Outra impressão que se tenta transmitir é o engessamento diante das demandas do Centrão, como se Lula não tivesse alternativa a não ser atender aos sequestradores de seu programa de governo. Quem acompanha a política nacional, suas alianças e fotos de sorrisos largos após interesses conjugados, sabe que não é bem assim.

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