Pandemia

Garantir leitos de UTI é o maior desafio do SUS para enfrentar o coronavírus

O cenário atual em Pernambuco é desanimador. As atuais 1.018 vagas de unidade intensiva da rede pública de saúde já funcionam com praticamente 100% de ocupação.

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 22/03/2020 às 7:08
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BIANCA SOUZA/ACERVO JC IMAGEM
Bolsonaro vai assumir a responsabilidade? - FOTO: BIANCA SOUZA/ACERVO JC IMAGEM
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Na semana passada, no intervalo de apenas dois dias, o governo de Pernambuco fez dois anúncios diferentes em relação ao reforço na oferta de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Na segunda-feira (16), informou que seriam criados 100 novos leitos. Na quarta (18), a promessa já havia pulado para 400 novas vagas. A mudança é sintomática. Garantir o atendimento nas unidades de terapia intensiva é, de longe, um dos maiores desafios que o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentará na guerra contra o coronavírus. Não só pela já saturada rede hoje disponível, mas, principalmente, pelo comportamento da doença. Os pacientes graves contaminados com a covid-19 precisarão de um respirador e de um longo tempo de permanência na UTI. Será a diferença entre viver e morrer.

O cenário atual em Pernambuco é desanimador. As atuais 1.018 vagas de unidade intensiva da rede pública de saúde já funcionam com praticamente 100% de ocupação. São mais 887 vagas na rede privada. Parte dessa oferta certamente terá que ser requisitada pelo poder público. A situação não é muito diferente em relação ao restante do País. O Brasil conta hoje com 55.101 leitos de UTI. Destes, 27.453 estão no SUS. A taxa de ocupação na rede pública fica em 78%, o que deixa pouca margem para a imensa demanda que precisará ser atendida.

Estima-se que de 10% a 20% dos pacientes infectados pelo coronavírus vão precisar dos serviços de UTI. Para piorar, o tempo médio de um paciente com covid-19 no leito de unidade intensiva é de 14 dias, o dobro do período de permanência de doentes com outras enfermidades.

Assim como o governo de Pernambuco, o Ministério da Saúde também ajustou as promessas de oferta de novas vagas. Depois de anunciar mil leitos, subiu a quantidade para 2 mil e, na última sexta-feira, publicou pregão para locação de 3 mil leitos de UTI de instalação rápida em todo País.

GESTÃO DA REDE PRIVADA

“Com o crescimento exponencial dos casos graves, o SUS terá que assumir a regulação dos leitos privados. Isso pode ser feito por decreto, diante da emergência sanitária. Essa medida será inevitável, se quisermos preservar vidas”, diz o médico sanitarista Gastão Wagner, ex-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor de Saúde Pública da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A questão é matemática. Metade das vagas de UTI estão na rede privada, que atende apenas 25% da população. A outra metade dos leitos, ofertados pelo SUS, é disputada por 75% dos brasileiros. Uma conta que já não fechava antes mesmo da pandemia.

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