ENCHENTES

Vídeos: chuvas fazem rio transbordar e invadir casas na Mata Sul de Pernambuco

Especialistas afirmam que enchentes são formadas pelo aumento de precipitação no rio Jacuípe, afluente do Rio Una, que cobre a região, e pela diminuição da vazão, influenciada pela alta de marés

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 20/05/2020 às 14:50
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CORTESIA
A Zona Rural do município de Água Preta, Mata Meridional de Pernambuco, enfrenta enchentes na manhã desta quarta-feira, 20 - FOTO: CORTESIA
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Os ponteiros do relógio marcavam 7h30 quando o café da manhã dos Borges foi interrompido. Em um dia de chuva aparentemente inofensivo para os quatro integrantes da família, que já tanto entendem sobre o perigo das enchentes, a água barrenta invadiu a casa situada na Zona Rural do município de Água Preta, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, trazendo, mais uma vez, o medo de perder tudo o que se tem. O choro do pequeno morador de cinco anos foi a trilha sonora para o cenário de uma guerra que, segundo habitantes, todos os recentes anos, é perdida para a força da natureza e para ausência de ações do poder público.

“Todos os anos é esse sofrimento. Hoje já alagou duas vezes. A primeira vez e, quando estávamos limpando, veio outra, só durante a manhã. Estava chovendo mas ninguém imaginava que ia dar essa enchente. Foi coisa rápida, a água subiu em coisa de minutos. Não tem como tirar a água, a rua está cheia. Temos que esperar diminuir o nível do rio, a água baixar para a gente começar a tirá-la, limpar os móveis e ver o que ainda presta”, relatou Ricardo Borges, 50 anos, técnico em agropecuária, “nascido e criado” em Água Preta, município que soma 36.771 habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com o Monitoramento das Chuvas da Agência Pernambucana de Águas e Climas (Apac), o município acumulou 33,1 milímetros de precipitação durante as últimas 24 horas, o que representa chuva fraca. Apenas a partir dos 40 milímetros que avisos meteorológicos sobre perigo de chuvas de intensidade moderada a forte são enviados para localidades correspondentes. Os dados mostram que os municípios que mais choveram no Estado nas últimas 24 horas foram Xexéu (82,71mm) e Palmares (76,86mm). De Água Preta, as cidades distam, em linha reta, apenas 15 e 7 quilômetros, respectivamente.

O irmão de Ricardo, Gustavo Borges, que hoje mora no Recife mas cresceu na comunidade, narra que, nos últimos quatro anos, é a terceira vez que a casa dos seus pais é invadida pela água. Pela recorrência do problema, a família estruturou a residência pensando na chegada das enchentes. “Isso tem sido recorrente sobretudo de 2010 para cá. Na casa dos meus pais tem um anexo de primeiro andar e eles conseguem se abrigar por lá. A população de modo geral já toma prevenções, por exemplo: na minha casa não tem mais guarda-roupa de madeira, é de alvenaria com cerâmica. Os móveis da cozinha e da sala já ficam suspensos”.

Ele denuncia, também, que não vê ações do Governo do Estado e nem da prefeitura de Água Preta amenizar o estrago causado pelas enchentes. "Não vemos nenhuma ação no sentido de dragar o rio (remoção de sedimentos), tirar lixo das áreas que passam pelos córregos. Os rios estão assoreados, todo mundo já sabe disso, mas você não vê ação de prevenção nenhuma, poder público nenhum", expôs Gustavo.

O prefeito de Água Preta, Eduardo Coutinho (PSB), relata que o alagamento acontece, nesta manhã, no distrito da Usina Santa Terezinha, mas que o problema de fato é recorrente. “Fazia muito tempo que não chovia tanto quanto hoje. Mas, lamentavelmente, isso é recorrente. Toda vez que chove muito os riachos e rios aumentam o volume de água e transbordam para algumas ruas”. Ele explica que três secretários da prefeitura, de Desenvolvimento Rural, Infraestrutura e Assistência Social, foram enviados ao local para fazer o levantamento da situação e abrigar as pessoas que precisem na quadra de esportes da localidade. “Devemos mandar, hoje ainda, um ofício para a Codecipe, pedindo apoio logístico como envio de colchão, cobertor, produtos de limpeza e alimentação. Vamos levantar as necessidades, abrigar as pessoas e entrar com as ações que o município normalmente faz.”

Já a Secretaria Executiva de Defesa Civil do Estado afirma complementar as ações feitas pelo município e minimizar os efeitos de uma precipitação acima da média histórica para este ano em Pernambuco, já prevista pela Apac. “O Estado chega junto dos municípios com a Defesa Civil, porque são eles que trabalham o assoreamento, na remoção de lixo, a conscientização de pessoas, fiscalização e monitorando ocupação de áreas ribeirinhas. Mas a gente está se preparando para poder minimizar os efeitos dessa quadra chuvosa mais forte”, garantiu o secretário da pasta, Coronel Lamartine Barbosa. Algumas destas medidas são ações de capacitação para efetivo estadual, informações sobre autoproteção e segurança pessoal para os moradores para 56 municípios de Pernambuco. No entanto, não foi especificado se os municípios atingidos por fortes chuvas não fazem parte da lista.

O monitoramento da Defesa Civil, segundo o secretário, é feito diariamente com os municípios, procurando saber se houve danos decorrentes de chuvas. “Nós fazemos o acompanhamento juntamente com a sala de estação da Apac do que tem acontecido em nível de chuvas e dos rios e isso nos provoca contato com os coordenadores municipais da Defesa Civil para saber o que tem acontecido nas cidades. Havendo a comunicação de desastre, o município é a primeira resposta e na sequência enviamos nossa equipe do Grupo de Apoio e Desastres para fazer o monitoramento, colher demandas e providenciar o atendimento da logística humanitária necessária”. O Coronel também destacou a construção da barragem Serro Azul, represa construída no leito do Rio Una na cidade de Palmares, afirmando que, se não fosse pelo equipamento, as enchentes que aconteceram em 2017 seria ainda piores.

Histórico de enchentes

O geógrafo e professor do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) Eberson Pessoa Ribeiro explica que as enchentes são formadas pelo aumento de precipitação no rio Jacuípe, afluente do Rio Una, que cobre a região. “As chuvas são normais para este período no ano da Zona da Mata, porém estão mais intensas por causa do sistema de ventos conhecido como Ondas de Leste e pela intensificação da temperatura da superfície do Atlântico. A vazão no oceano também está um pouco impedida pela maré alta, por isso a vazão diminui. Então a água que seria escoada fica retida e não consegue vazar para o oceano”.

O problema das enchentes, para o especialista, também é intensificado pela urbanização ao redor dos rios. “Os municípios que ficam à margem desses rios vão alterando o seu fluxo. A medida que esse rio vem sendo urbanizado, a vazão aumenta com as chuvas intensas porque seu leito está sendo alterado, ficando mais raso, e mais detritos chegam até ele”, expôs Ribeiro.

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A Zona Rural do município de Água Preta, Mata Meridional de Pernambuco, enfrenta enchentes na manhã desta quarta-feira, 20 - CORTESIA
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A Zona Rural do município de Água Preta, Mata Meridional de Pernambuco, enfrenta enchentes na manhã desta quarta-feira, 20 - CORTESIA
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