FOME

A aflição de quem depende da solidariedade alheia para matar a fome, um direito constitucional

Diversas famílias da Comunidade do Cardoso, na Madalena, Recife, garantem a alimentação da família a partir de doações de alimentos. É o caso da dona de casa Danielle Bruno Nascimento e a autônoma Priscila Rosa da Conceição

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 09/05/2021 às 8:00
Notícia
FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
Temos muito o que agradecer, porque a situação está muito difícil. Esse sopão, a 'janta' que nos dão, nos satisfaz. É uma 'janta' boa que vem com amor e carinho", afirma Danielle Nascimento, dona de casa - FOTO: FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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“Hoje, fico preocupada com o que vou comer amanhã. Com o que meus filhos vão comer amanhã. Como vou viver amanhã. Como vou pagar essa casa amanhã. Sempre me pergunto sobre o amanhã”. Diagnosticada com ansiedade, a dona de casa Danielle Bruno Nascimento, de 39 anos, viu o quadro piorar após ter ficado desempregada durante a pandemia. A mente dela não tem descanso; já que o amanhã é sempre incerto. Mas, o presente é uma vez por semana acalentado pelas doações de marmitas feitas pela Associação Vizinhos Solidários, que atende a Comunidade Sítio Cardoso, na Madalena, Zona Oeste do Recife, onde mora, e outras 45 localidades na Região Metropolitana.

As mangas arregaçadas dos 26 voluntários da instituição sem fins lucrativos preparam e entregam as doações feitas por civis e 24 empresas parceiras. Todas as quartas-feiras, são levados centenas de pratos de comida até o Cardoso, que tem cerca de 1.200 habitantes. Na última ação, foram entregues 300 marmitas. “Temos muito o que agradecer a eles, porque a situação está muito difícil. O Cardoso está muito carente em termos de comida. Esse sopão, a janta que nos dão, nos satisfazem. É uma janta boa que vem com amor e carinho, o que é o mais importante”, disse Danielle, que saiu do ponto de entrega com quatro pratos e dois pães, o que garantiu o jantar da família.

Danielle e o marido entraram no percentual de 13,5% brasileiros desempregados em 2020, o primeiro ano de pandemia, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); o maior índice desde o início da série histórica iniciada em 2012 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Em sua residência, onde o casal mora com mais dois filhos, de 5 e 18 anos, a renda tornou-se apenas os R$ 375 do auxílio emergencial federal. O valor não dá nem mesmo para pagar o aluguel de R$ 550, hoje bancado pela sogra da dona de casa, que trabalha como diarista.

“Só o gás de cozinha custa R$ 89. Ainda vem luz, leite e fralda para o meu filho. Eu agradeço a Deus por ainda ter [o benefício], mas não é uma ajuda suficiente em uma pandemia. No ano passado, meu esposo recebeu até a 3ª parcela, mas, na 4ª parcela, foi cortado como se estivesse trabalhando, mas ele não estava. Neste ano, não teve direito de novo”, contou.

Danielle disse ter perdido, recentemente, duas vizinhas idosas para a covid-19. O medo de também ser infectada faz com que ela escolha permanecer dentro de casa, mesmo diante das dificuldades financeiras, ao invés de procurar trabalhos informais e ficar à mercê de uma doença que já levou mais de 14 mil vidas pernambucanas. “Vou fazer o que? Com a doença, tenho que ficar dentro de casa. Ou eu me prendo, para terminar de criar meus filhos, ou eu meto a cara, saio, pego essa doença, morro e deixo os dois órfãos. Entre a cruz e a espada, prefiro estar dentro da minha casa.”

FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Com desemprego em ascensão e pandemia da covid-19, muitos moradores da comunidade do Cardoso, na Madalena, precisa de doações de cestas básicas e marmitas para garantir a comida do mês. A ajuda chega semanalmente pela associação Vizinhos Solidários. - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

A redução na renda refletiu na alimentação da família — um direito social, segundo Constituição Federal — que hoje vive à espera de doações. “Quando eu não tenho, venho aqui [pegar as marmitas doadas]. Quando aqui tem, me dão. Quando não, vou até os amigos. Assim vai a minha vida e a de muitos aí dentro da comunidade. [...] Antes, eu ajudava, não me faltava, eu tirava do meu para dar a vizinhos que precisavam, e hoje não posso fazer isso”, relatou. Toda semana, ela também se desloca até o Sítio do Berardo para recolher sopa e pacotes de leite para o filho pequeno.

As distribuições de comida saciam a fome momentaneamente, mas não são suficientes para garantir uma vida feliz, que, para ela, seria construída a partir de uma estabilidade financeira, emprego formal e condições que garantam a dignidade humana. “Como uma mãe vai ficar feliz em uma situação dessa? Se eu não fosse uma mulher de fé, eu já teria desmoronado. [...] Antes, eu sorria. Hoje eu vejo meu filho pedir lanche e eu não posso dar, e criança não espera. Ainda hoje ele disse, ‘mainha, me dá um salgadinho’, e eu disse: ‘não tenho dinheiro’. Dói, dói muito”, desabafou.

Dispensa cheia. Mas, até quando?

Pelo menos uma vez por mês, a Vizinhos Solidários também leva em média 300 cestas básicas até a Comunidade do Cardoso, que são entregues por rodízio de famílias. A doação feita na última semana encheu a dispensa da autônoma Priscila Rosa da Conceição, 33, com o essencial para uma boa nutrição, com arroz, feijão e açúcar. Além de servir a família dela, formada pelo marido e duas filhas, os poucos pacotes de comida são divididos também para a mãe e para a sogra. A comida deve durar em torno de um mês, e, depois disso, o que resta é esperar pela próxima boa ação.

“Peguei a feira básica e meu armário está abastecido. Eu divido com minha sogra e com a minha mãe. Tem mês que pego uma ou duas feiras e divido para todos, porque sempre estou atrás de uma cesta. Onde estão dando, estou lá. Quando minha mãe precisa de comida, ela vai pegando. Um dia tem mais, outro tem menos, mas nunca deixo faltar. Fome, eu não passo. Vamos sobrevivendo. A vida é de luta. A sorte da gente são as doações que recebemos na comunidade. Graças a Deus, ela é muito abençoada”, agradeceu.

Há três anos desempregada, a ex-doméstica recebeu o auxílio emergencial durante toda a pandemia. Com o valor do último ano, ela pôde investir na compra de itens para festas infantis, como piscina de bolinhas, máquinas de algodão doce e pipoca e pula-pula. Priscila começou o novo negócio dentro da própria comunidade, mas, com o agravamento no número de casos e internações, as celebrações de aniversários também pararam de acontecer.

“Eu estava trabalhando direitinho, até que a pandemia piorou e parou tudo. Está difícil ter festa aqui, é uma perdida, e o preço é tem que ser bem menor do que seria antes. A situação hoje está difícil. Também faço faxina, tomo conta do filho de uma amiga e ela me paga, além de também ajudar com a minha feira. Aqui, na comunidade, um ajuda o outro, porque às vezes a gente nem tem [comida] no dia. Hoje tem, amanhã não”, relatou.

O trabalho da Vizinhos Solidários é mais um no imenso mar de ações emergenciais no Grande Recife. “A nossa cidade está bem servida de ONGs sérias, que fazem a ponte entre o doador, a comunidade e as pessoas em situação de rua”, disse a presidente da associação, Maria Eduarda Fernandes. Ela é quem encabeça o trabalho árduo em combate à fome; que nem mesmo deveria existir. “As ONGs são os braços que o governo não tem. A gente chega onde ele não dá prioridade em chegar. As pessoas sentem fome e têm necessidade [de doações], e precisamos criar uma cultura para ajudá-las.”

Outras ações

Outra instituição empenhada em ajudar quem mais precisa é o Instituto JCPM (IJCPM) de Compromisso Social. Desde o início da pandemia, a entidade já doou 44.135 mil cestas básicas em cinco diferentes cidades, em um desprendimento financeiro de R$ 3,5 milhões. Só no Recife, foram 22.111. “Após mais de um ano de pandemia, é essencial que toda a sociedade se mobilize para ajudar as pessoas em vulnerabilidade social. Nesse sentido, o instituto atende as comunidades do Pina e de Brasília Teimosa com a distribuição de cestas básicas, porque existem pessoas que realmente estão passando fome. Quem recebe aponta que a ajuda tem vindo em um momento essencial”, disse a coordenadora de desenvolvimento social do IJCPM, Fábia Siqueira

Uma das atendidas pelo IJCPM foi a jovem Samantha Vitoria Araujo, de 19 anos. Para ela, a cesta básica foi um respiro para as contas de casa, já que a família autônoma viu as vendas de alimentos caírem com as restrições sanitárias. “Minha mãe está desempregada, e a gente vendia açaí, bolo de pote e mousse nas ruas, mas, com a pandemia, não podemos mais. Agora, só em casa, as vendas caíram muito. É complicado, porque dependemos disso. Com a cesta, vai ser menos um gasto”, afirmou.

Como ajudar

IJCPM de Compromisso Social

Para entrar em contato com a instituição, acesse www.ijcpm.com.br/contato

Associação Vizinhos Solidários
Rua Souto Filho, 118, Pina
Para doar, transferir valor para o PIX: 39.988.775/0001-52

Cúria Metropolitana
Av. Rui Barbosa, 409, Graças, Recife, todos os dias, de domingo a domingo, das 7h às 17h, além de paróquias das igrejas católicas

Armazém do Campo
Rua Imperador Dom Pedro II, 387, Santo Antônio
Para doações em dinheiro: Associação da Juventude Camponesa Nordestina - Terra Livre - Banco do Brasil | AG 0697-1 | CC 58892-X (outros bancos, substituir o X por 0)
PIX: 09.423.270.0001.80

A Fome Não Pode Esperar
As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Diocese de Palmares - CNPJ: 10.193.944/0028-04 - Banco do Brasil | AG: 3924-1 | CC: 40.629-5

Central de Cidadania
As doações podem ser feitas pelo site www.centraldecidadania.org/doe-contato

Cores do Amanhã
As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Movimento Social e Cultural - Cores do Amanhã - CNPJ: 13.449.687/0001-9 - Banco do Brasil | AG: 4118-1 | CC: 20.766-7

Enche Panela
As doações podem ser feitas via vakinha.com.br/vaquinha/enche-panela

Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC)
As doações podem ser feitas pelo site www.nacc.org.br/como-ajudar/doacoes/

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