ESPECIAL EDUCAÇÃO

Adaptação precisou ser regra durante a alfabetização no ensino remoto

Crianças, famílias e escolas passaram por novos formatos de aprendizagem. Volta ao presencial trouxe novas possibilidades

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Publicado em 30/11/2021 às 8:13
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ENSINO Jeannine Barbosa da Silva, mãe do pequeno Tom, vivenciou a alfabetização do filho de forma remota. Ser professora ajudou a adaptar as atividades durante esse período - FOTO: ARQUIVO PESSOAL
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Acorda; organiza a criança; leva para a escola; busca na escola; faz a tarefa de casa… o dia a dia de quem tem criança na família é marcado por diversas atividades. Mas, no último ano, essa rotina deu lugar aos computadores e às aulas remotas, devido à pandemia. A professora e mãe de Tom, Jeannine Barbosa da Silva, sentiu essa diferença, principalmente no período de alfabetização do filho.

“O processo de alfabetização de Tom já vinha acontecendo há bastante tempo, para falar a verdade. Desde muito pequeno ele tinha acesso a histórias, livros, brinquedos e brincadeiras que envolviam letras e histórias. A pandemia culminou na alfabetização, talvez, por ser professora do município com aulas remotas 100%, pude acompanhá-lo integralmente e ajudá-lo nas adaptações em suas aulas e atividades”, conta a professora.

Tom tinha aula todos os dias, mas apenas uma hora. Mesmo com a mãe sendo professora e dando esse suporte a mais as dificuldades, sabemos, foram presentes para todos. “A maior dificuldade que senti, além do meio em que ele se encontrava com muitos estímulos, quarto com brinquedos e objetos, a novidade de ter acesso ao computador. Desde cedo evitamos o contato com telas e assistir às aulas, no início foi bem difícil. As ferramentas disponíveis na plataforma o faziam dispersar. Além do contato com as outras crianças pelo computador, que era uma novidade”, detalha.

Ficar atenta a esse acompanhamento foi um ponto muito importante durante a alfabetização de Tom. E essa atenção a como a alfabetização foi afetada, pois as aulas online interferiram na dinâmica de ensino das escolas, foi um dos pontos levantados pelo psicólogo clínico, escolar e neuropsicólogo Janio Climaco em relação aos impactos da pandemia na alfabetização. 

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FORMAÇÃO O neuropsicólogo Janio Climaco destaca que o processo de alfabetização vai além da sala de aula - TIÃI SIQUEIRA/JC360

“Houve uma dificuldade imensa, por mais que as escolas tenham tentado, mas de alguma forma a dinâmica foi quebrada e um novo estilo foi introduzido na aprendizagem. Lembrando que a aprendizagem não está relacionada apenas ao que o professor passa para os alunos, mas a dinâmica escolar em relação ao que a criança visualiza na escola, nos quadros, nas paredes, ao redor do ambiente escolar, como também no relacionamento com os colegas. Isso tudo faz parte do processo de aprendizagem da criança e também foi afetado”, pontua.

As mudanças e dificuldades foram nítidas para todos. Investir em adaptação e suporte foram pontos fundamentais para as escolas, complementa o psicólogo. “A escola precisou se adaptar e disponibilizar todo o suporte necessário para o ensino. A escola continua sendo a facilitadora do conhecimento e se ela não faz isso de maneira abrangente, se adaptando, ela não terá como gerenciar as atividades e o conhecimento do processo educativo, como também o acompanhamento junto às famílias”, finaliza.

ADAPTAR PARA ACOMPANHAR

Nesse processo de alfabetização de forma remota, a volta ao presencial - totalmente ou parcialmente - ressaltou a importância do papel das escolas na construção crítica e social dos cidadãos. As dificuldades enfrentadas precisaram ser administradas de maneira que a educação continuasse como prioridade.

“As escolas da rede pública não estavam plenamente preparadas para o ensino remoto. Algumas redes criaram plataforma própria. À medida que o período pandêmico ia avançando, os professores se reinventaram na produção de vídeos e aulas remotas usando, principalmente, a rede social Whatsapp. Para as crianças que não tinham conectividade à rede, os professores preparavam atividades físicas impressas ou manuscritas e as entregavam aos pais ou responsáveis. Ou seja, cada escola organizou uma forma de se fazer chegar até a criança”, detalha Ana Selva, secretária executiva de Desenvolvimento da Educação do Estado.

A secretária ressalta a importância da volta ao presencial, com as medidas de saúde e segurança sejam cumpridas. “Estas ações são importantes, mas não substituem a necessidade do professor mediando o processo de alfabetização. Assim, é fundamental o retorno presencial para dar continuidade às aprendizagens”, complementa.

ESCOLA RESGATA

Na busca por oferecer uma educação de qualidade e fazer com que os estudantes consigam acompanhar a lacuna criada com o ensino remoto, no bairro de Peixinhos, em Olinda, o diretor da Escola Municipal CAIC Profª Norma Coelho, Francisco Oliveira, iniciou na instituição o projeto Escola Resgata.

“O projeto surgiu da dinâmica da escola, da necessidade que a gente identificou, após o retorno presencial, de fazer com que essas crianças que não estavam participando do ensino remoto, ou estavam, mas com dificuldades, voltassem para escola. Então, a Rede de Olinda desenvolveu um projeto com a mesma intenção e dentro desse projeto outras ações foram repercutindo”, lembra o diretor, que pontua sobre a importância para a escola. 

DIVULGAÇÃO
PROJETO Francisco Oliveira, diretor da Escola Municipal CAIC Profª Norma Coelho, implementou o Escola Resgata - DIVULGAÇÃO

“Nós desenvolvemos essa ação local para tentar mobilizar a comunidade de Peixinhos, que é onde a escola está, então, o objetivo foi identificar a necessidade que a escola tinha de fazer com que essas crianças voltassem para o presencial e desencadear um conjunto de ações locais que impactam diretamente nessa aprendizagem”, completa.

O Escola Resgata iniciou com foco nas crianças do 2º e 5º ano, pois foram as primeiras a voltar ao presencial na instituição, e foi se estendendo para todas as outras turmas, conforme o retorno ao presencial foi realizado.

“A gente percebeu que era fundamental que esse estudante que não participaram de nenhuma atividade, nem mesmo remota, voltassem o quanto antes à atividade presencial para que na escola nós pudéssemos fazer uma anamnese da situação da criança, identificar o nível de desenvolvimento e aprendizagem que ela está e o déficit de escrita e leitura, de matemática e nas outras disciplinas. A partir daí, montamos um plano de ação para tentar atender essa demanda dessas crianças. Para a gente, essa volta foi fundamental porque impacta diretamente no desenvolvimento da aprendizagem do estudante”, complementa. 

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