URBANISMO

"A vida no morro é assim; sempre arriscada", diz morador na Zona Norte do Recife que teme deslizamentos há 40 anos

Na capital onde 67% de sua área é composta por morros, o medo da chuva é presente na vida de grande parte dos cidadãos

Katarina Moraes
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Katarina Moraes
Publicado em 06/04/2022 às 17:41 | Atualizado em 07/04/2022 às 10:43
Alexandre Aroeira/JC Imagem.
Severino Araújo, 60, vive com medo de deslizamento de barreira há 40 anos - FOTO: Alexandre Aroeira/JC Imagem.
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Enquanto Joselino Severino, de 54 anos, comemora o início da obra de contenção da barreira que fica no pé de sua casa, em Dois Unidos, a poucos quilômetros dali, no Brejo da Guabiraba, também no Recife, o porteiro Severino Araújo, 60, continua, há 40 anos, com medo de futuros deslizamentos. A família dele é uma das muitas que ainda esperam por uma solução que os façam dormir tranquilos nas noites de chuva.

“Minha barreira já caiu há alguns anos. Eu mesmo vou fazendo os reparos. Quando está chovendo, não recebemos avisos ou alertas para sairmos de casa. Ficamos vigiando, com um olho no padre, e outro na missa. É sempre arriscado, temos medo da casa desabar, mas não temos condições de arrumar agora. A comunidade fica sem saber o que fazer. Fica se acordando toda hora, dorme pouco. A vida no morro é assim. Diferente da do rico”, contou.

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Área de morro no Brejo da Guabiraba, Zona Norte do Recife - Alexandre Aroeira/JC Imagem.
ALEXANDRE AROEIRA/JC IMAGEM
ESPERANÇA Moradores de áreas de morro, que convivem com o medo todas as vezes em que chove forte, esperam que intervenções tragam mais segurança e evitem tragédias - ALEXANDRE AROEIRA/JC IMAGEM
Alexandre Aroeira/JC Imagem.
Área de morro no Brejo da Guabiraba, Zona Norte do Recife - Alexandre Aroeira/JC Imagem.
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Área de morro no Brejo da Guabiraba, Zona Norte do Recife - Alexandre Aroeira/JC Imagem.
Alexandre Aroeira/JC Imagem.
Área de morro no Brejo da Guabiraba, Zona Norte do Recife - Alexandre Aroeira/JC Imagem.

A vizinha dele, Josefa Terezinha Silva, 71, disse à reportagem que a única medida que vê sendo tomada pelo governo é a reposição de lonas plásticas em sua barreira desde 1994, quando se mudou para a residência onde vive hoje. “Moro com um filho aqui, e a situação não é boa. Quando chove, saio dos quartos mais próximos da barreira, mas tenho medo principalmente pela casa da minha filha, que fica embaixo.”

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Josefa Terezinha Silva, 71, moradora do Brejo da Guabiraba - Alexandre Aroeira/JC Imagem.

Na capital em que 67% de sua área é composta por morros, ambos são uma parcela dos cidadãos que temem o inverno recifense. Por isso, todos os anos, a Ação Inverno municipal anuncia um conjunto de intervenções destinadas a minimizar os impactos das chuvas na cidade - entre elas, o Plano de Encostas, lançado nesta quarta-feira (6).

O plano contará com um investimento de R$ 40 milhões, oriundo de financiamento. Por meio da Autarquia de Urbanização do Recife (URB), serão feitas 24 intervenções em pontos de Beberibe, Alto José Bonifácio, Nova Descoberta, Jordão Baixo, Vasco da Gama e Brejo da Guabiraba, entre outras.

“A gente hoje autoriza o início de 24 obras coletivas de proteção de encostas, podemos ver aqui atrás várias barreiras com lonas e onde há lonas aqui serão construídas obras definitivas como muro de arrimo e tela argamassada. São R$ 40 milhões sendo investidos pela Prefeitura, a gente já começou com R$ 20 milhões e ao longo do ano vamos colocar mais R$ 20 milhões. O prazo de execução é até fevereiro do próximo ano. E o mais importante é que a Prefeitura já dispõe desse recurso, foi fruto de uma operação de crédito que será bancada 100% pelo município do Recife", disse o prefeito João Campos (PSB) durante cerimônia de anúncio.

Agora, 12 obras estão em andamento, enquanto outras 12 ainda estão para ser iniciadas. A Prefeitura prevê que pelo menos 500 famílias sejam beneficiadas. Uma delas é a de Joselito, cuja história já foi contada em outra matéria deste JC. Durante visita da reportagem, o inspetor de qualidade de 54 anos não escondia a felicidade com o entra e sai de trabalhadores que transformam, aos poucos, a estrutura íngreme e perigosa, agora tomada por barro, em uma mais segura, formada por concreto.

“Sempre teve essa barreira, mas foi piorando. Ela era mais baixa e com o tempo começou a cair”, contou Joselito. “Por aqui, a vizinhança nunca perdeu parentes, mas já perdeu bens materiais e teve terrenos condenados. Durante as chuvas, o pessoal aqui não dormia. Éramos esquecidos. Quando chegaram aqui há duas semanas dizendo que iam fazer a obra, achei que fosse brincadeira”, disse.

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REFORÇO Prefeitura diz que 12 obras estão em andamento, enquanto outras 12 ainda estão para ser iniciadas na Zona Norte da capital - ALEXANDRE AROEIRA/JC IMAGEM
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Obras na Rua Córrego São José, em Dois Unidos, na Zona Norte do Recife - Alexandre Aroeira/JC Imagem.
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Obras na Rua Córrego São José, em Dois Unidos, na Zona Norte do Recife - Alexandre Aroeira/JC Imagem.

O professor universitário Mário Filho, também conselheiro da Câmara de Geologia e Minas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (CREA-PE), defende a ampliação de monitoramento de áreas de risco não só no Recife, mas na Região Metropolitana, para evitar desmoronamentos.

“A geologia da RMR tem morros que são suscetíveis a desmoronamento por ter áreas com bastante areia, que tendem a deslizar. E o princípio básico para evitar isso é o mapeamento. Colocação de lonas e construção de muros são maquiagens que podem ajudar, mas são ações definitivas. Tem que fazer a correção das áreas e retirar pessoas que moram em áreas que tenham um zoneamento crítico”, exemplificou.

Integrante do movimento Recife de Luta, Rud Rafael, defende que o investimento para áreas de risco seja ampliado na cidade, além de que mais comunidades ganhem o título de Zona Especial de Interesse Social (Zeis) para que a criação de planos urbanísticos que identifiquem suas necessidades sejam elaborados com mais facilidade.

“Quando não há esse investimento o resultado são essas catástrofes socioambientais.. É um desafio do Recife gerar estrutura para áreas de morro e não fazer com que a água escorra e alague as áreas planas. Se tem uma política paliativa de colocar lonas para evitar que a água incida diretamente no solo, mas a impermeabilização do solo é uma maneira mais definitiva, que deve ser acompanhada por ações de drenagem urbana para saber para onde essa área vai escorrer, para que não se concentre e gerem alagamento”, opinou.

Ação Inverno

Neste ano, a Prefeitura do Recife anunciou orçamento de R$ 148 milhões para a Ação Inverno, investidos em medidas de prevenção, monitoramento, eliminação de pontos críticos, e obras de micro e macrodrenagem.

Ao todo, 3 mil servidores e nove secretarias e órgãos municipais a integram a ação comandada pela Defesa Civil, que tem como principal função evitar ou minimizar situações de calamidade. Em 2022, promete 55 mil vistorias em locais de risco neste ano, 10 mil visitas de orientação porta a porta e 100 ações educativas nas escolas, além da realização de três Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil, que visam aproximação com as comunidades para prevenção de riscos por meio de suas lideranças.

Socorro

Nos casos de emergência em áreas de risco, a Defesa Civil recomenda que os moradores liguem para o número 0800-0813400. A ligação é gratuita e a central funciona 24h para atender as chamadas. Além disso, os moradores também devem seguir as orientações enviadas via SMS caso haja possibilidade de chuvas fortes.

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