ELEIÇÕES 2020

A geolocalização vai ser mais usada na eleição deste ano

A ferramenta será mais utilizada em de forma digital e mais direcionadas ao público das campanhas políticas, segundo especialistas

Angela Fernanda Belfort
Angela Fernanda Belfort
Publicado em 24/07/2020 às 21:41
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YACY RIBEIRO
Como a geolocalização pode influênciar nas próximas eleições - FOTO: YACY RIBEIRO
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Logo no começo da pandemia, a  população percebeu que é possível mostrar onde as pessoas estão - sem identificá-las - fazendo uma espécie de rastreamento dos celulares. A grosso modo, isso ocorre devido às ferramentas de geolocalização que podem dizer onde o cidadão mora, trabalha, a forma como se desloca etc. Junto a essas informações, a crise sanitária trouxe um outro cenário na eleição deste ano: os tradicionais aglomerados com comício e passeata, provavelmente, não vão ocorrer. A geopropaganda (que usa a geolocalização para chegar ao cidadão) deve ser uma das protagonistas no pleito deste ano, segundo publicitários e empresários. A ferramenta já está sendo muito usada nas campanhas eleitorais que estão acontecendo na Índia e dos Estados Unidos. E o que acontece por lá acabando chegando por aqui.

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“A geolocalização está mais massificada e deve ser mais usada nestas eleições porque a pandemia fez as pessoas ficarem mais atentas à isso. Quando se fala de geolocalização não é só a capacidade do anúncio atingir determinado público, de um bairro por exemplo, mas também de perceber o que as pessoas estão dizendo nas redes sociais e dialogar com a pauta que aquela população quer. O primeiro passo mais importante de qualquer campanha política continua sendo a velha e boa estratégia”, resume a diretora de Operações da Le Fil, Rosário de Pompéia.

Ela também argumenta que, no mundo digital, já está comprovado que as campanhas que falam para “todo mundo”, de uma maneira geral, não funcionam bem. “A geolocalização pode deixar a campanha mais assertiva e fugir daquele discurso massificado que ninguém aguenta mais. Se o político sabe o que aquele bairro está querendo, pode direcionar a sua propaganda aquelas pessoas, porque o mais interessante será o debate”, comenta Rosário.

Um indicador do aumento do interesse na campanhas digitias é que a Le Fil já percebeu um aumento de 10% com relação ao número de pedidos de orçamento apresentados até agora, comparando com 2018. “E vai aumentar com a definição das eleições em novembro. São muitos candidatos na eleição de prefeitos e vereadores. E, por vários motivos, a eleição de Bolsonaro, deixou mais forte o debate digital. Tem candidato que já nos procurou somente para fazer o monitoramento das fake news produzidas sobre ele”, resume. E acrescenta: “na última eleição o Whats App foi importante. Nesta, ele vai ser o rei”. A última eleição ocorreu em 2018 e as fake news reinaram durante a disputa.

Rosário diz que o que está em jogo na próxima eleição é a segmentação e a geolocalização é um aspecto dentro dela. A geolocalização cruzada com outras ferramentas digitais podem identificar o sexo, a idade, a renda, além do local onde a pessoa mora. Isso é um prato cheio”, comenta Rosário, se referindo ao fato de que essas informações podem ser usadas numa propaganda direcionada a esses usuários. No Brasil, a publicidade pode usar várias informações coletadas via geolocalização, mas não pode identificar o cidadão, porque isso é invasão de privacidade e é proibida. “A Lei Geral de Proteção de Dados tem que ser respeitada”, comenta Rosário.

O gerente de Inovação e Novos Negócios do Porto Digital, André Araújo, argumenta que a geolocalização pode gerar um impacto similar ao que o ocorreu com o uso do Whats App na eleição de 2018, porque “estão aumentando exponencialmente a quantidade de dados sobre as pessoas”. E complementa: “O uso da geolocalização vai permitir que a comunicação consiga ser mais eficiente. Resta saber se isso vai se dar de maneira ética e com o controle dos tribunais eleitorais”. Ele acredita que os políticos que tiverem mais recursos e uma boa estratégia vão se sobressair nesse cenário e percebe que a atual conjuntura talvez traga resultados diferentes como a eleição de pessoas que usam bem as mídias sociais nas comunidades.

TECNOLOGIA

A empresa pernambucana In Loco fez da geolocalização um dos principais produtos do seu negócio e ficou mais conhecida, do grande público, no início da pandemia, por ter usado uma ferramenta de geolocalização para indicar onde estavam ocorrendo as aglomerações, focos da transmissão do novo coronavírus. “A geolocalização é uma das ferramentas mais poderosas para o marketing político. E pode ser utilizada, por exemplo, para fazer uma pesquisa, pegando de forma bem segmentada e distribuída a opinião das pessoas. E esse dado pode ser usado pra muitas coisas, como a publicidade, conseguindo segmentar mensagens específicas”, resume o CEO da In Loco, André Ferraz. “Nos Estados Unidos, por exemplo, o voto não é obrigatório, e podem segmentar por regiões uma propaganda que tende para um determinado candidato, influenciando as pessoas daquela região a irem votar com uma ação publicitária no dia da eleição ou nos dias anteriores”, revela.

Na visão de André, o uso das informações produzidas a partir da geolocalização podem se tornar um problema em campanhas políticas no Brasil. “Gostaria de ver mais regulação no País com relação a esse tipo de dado. Entendemos o poder que tem a nossa tecnologia e a gente não vai querer, nem de brincadeira, usá-la para manipular a democracia. A privacidade é um tema extremamente importante, independente da oferta. Já negamos, anteriormente, em outras eleições”, conclui. A In Loco não trabalha com campanhas políticas.

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