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Entenda como são feitas as pesquisas eleitorais

Levantamentos para análise de tendência e intenção de voto seguem metodologia científica e são diferentes de uma enquete de redes sociais

Alice de Souza
Alice de Souza
Publicado em 22/10/2020 às 8:00
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Existência de uma pesquisa pode ser consultada no site do TSE. - FOTO: Foto: ABr
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Matéria produzida pelo projeto Confere.ai em parceria com o Jornal do Commercio. - confere.ai

Em ano eleitoral, as pesquisas de intenção de voto costumam tomar conta das manchetes nos meses antecedentes a votação. Nos últimos pleitos, tem se tornado comum a circulação de boatos e desinformação sobre esse tipo de levantamento. Uma das abordagens para desqualificar as pesquisas consiste em questionar os resultados apresentados pelos institutos. O Confere.ai - ferramenta de verificação automática - recebeu vários conteúdos relativos ao tema. Por isso, buscamos os institutos para mostrar como é feita uma pesquisa eleitoral e sanar as dúvidas recorrentes.


Uma das informações mais importantes, antes de entender como funcionam e são feitas as coletas e análises de dados é saber se, de fato, a pesquisa recebida ou lida por você existe. Para isso, basta acessar o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que lista todas as pesquisas registradas na Justiça Eleitoral desde 2012. No site, é possível ver, por exemplo, que entre o dia 30 de junho e a quarta-feira (21) haviam 100 registros referentes às eleições municipais de 2020 referentes a Pernambuco.


As pesquisas precisam ser registradas como no mínimo cinco dias antes da data da divulgação dos resultados, com as seguintes informações: quem contratou, valor e origem dos recursos, quando e como será feita, um exemplo do questionário aplicado, nome de quem pagou pela realização do trabalho com CPF ou CNPJ, plano amostral e dados do instituto de pesquisa.


Outro ponto importante para ter em mente, segundo a CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, é que as pesquisas são uma informação a mais no processo eleitoral, “entre tantas outras disponíveis que auxiliam a tomada de decisão em uma sociedade democrática. É neste contexto que nossas pesquisas precisam ser interpretadas.” Com isso em mente, entenda abaixo como funcionam e são feitas as pesquisas.

1. Pesquisa eleitoral não é a mesma coisa que enquetes de redes sociais

A primeira informação para entender uma pesquisa eleitoral é saber que ela difere de enquetes realizadas na internet. Há uma metodologia científica por trás das pesquisas, isto é, um passo a passo estudado, documentado e pré-definido para coleta, tratamento, análise dos dados e divulgação dos resultados. A depender do instituto responsável e da finalidade das pesquisas, a coleta dos dados pode ser por telefone, com a ida a casa das pessoas ou ainda com a aplicação de questionários nas ruas, em pontos de fluxo de grande movimento.


A escolha pelo tipo de coleta vai depender do tempo para realização - por telefone costuma ser mais rápido -, da amostra necessária, dos contratantes da pesquisa e da capacidade operacional do instituto. “As pesquisas eleitorais costumam ser mais rápidas, com perguntas instantâneas e estimuladas (quando você fala os nomes dos candidatos), com coletas em torno de dois a três dias. Como o Brasil é muito grande, as entrevistas por telefone também funcionam muito bem para prazos curtos”, explica a gerente de pesquisa do Ipsos, Priscila Branco.

2. Não é preciso entrevistar toda a população


Enquanto uma enquete coloca uma lista de nomes para serem votados por qualquer pessoa, uma pesquisa tem um escopo de público-alvo predefinido, cuja premissa é refletir a diversidade populacional de acordo com critérios e variáveis. Para isso, é selecionada uma amostra de pessoas seguindo as porcentagens populacionais levantadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou seja, dentro da quantidade de pessoas selecionadas para a pesquisa haverá a mesma porcentagem, por exemplo, das variáveis de homens, mulheres, grau de escolaridade, etc, que a existente no Brasil ou na região referente à análise.


A escolha da amostra, considerando esses percentuais, é feita de forma aleatória. Se a coleta do dado prevê a entrevista na casa das pessoas, é feita uma escolha aleatória dos municípios e, dentro deles, dos setores censitários - uma unidade territorial definida pelo IBGE para fins de censo. É como se fossem colocados todos os municípios e setores censitários dentro de uma sacola e fossem tirados alguns. Se a coleta for por telefone, os institutos trabalham com o processo de discagem aleatória. “Nesses casos, a gente respeita a distribuição de percentual de existência de telefones fixos e celulares segundo os dados do IBGE”, acrescenta Priscila Branco.


Isso garante que todos os indivíduos tenham a mesma chance de serem entrevistados. “Há uma analogia para entender isso de forma fácil. Quando você quer saber se uma sopa está boa, não precisa provar a panela inteira, basta pegar uma colher. A amostra segue a mesma ideia”, explica Priscila Branco. Depois que é escolhida a quantidade de pessoas a serem entrevistadas, os profissionais vão a campo e buscam em cada domicílio visitado o perfil desejado para completar aquelas porcentagens previstas pela amostra.

3. Como são escolhidos os entrevistadores

Os pesquisadores são pessoas contratadas pelos institutos. Antes de realizar as coletas, eles passam por um treinamento sobre metodologia de pesquisa e técnicas de entrevista, para reduzir e evitar o viés que pode induzir a resposta do entrevistado. O trabalho deles também é orientado e supervisionado por coordenadores, que acompanham a coleta dos dados. Depois que as informações são captadas, há uma etapa de processamento e análise do banco, na qual é observado o dado de acordo com parâmetros específicos, como gênero, região, religião, escolaridade, entre outros, a depender do propósito da pesquisa.

4. O que é considerado erro em uma pesquisa eleitoral de intenção de voto


Ao contrário do que pode parecer, a margem de erro é algo previsto na execução das pesquisas e está relacionada ao tamanho da amostra. Quanto menor a margem de erro de uma pesquisa, mais próxima do universo populacional brasileiro ela estará. Ou seja, margens de erro maiores significam que a pesquisa consultou uma quantidade de pessoas menor. De acordo com a teoria estatística, em pesquisas como as eleitorais, a cada 100 pesquisas cinco podem apresentar resultados diferentes daqueles previstos considerando a margem de erro.


Por outro lado, existem dois tipos de erros que podem acontecer em uma pesquisa. O mais comum deles é o erro amostral, quando a amostra definida não representa aqueles percentuais populacionais estabelecidos pelo IBGE, não representando assim a diversidade necessária. Outro erro, que inclusive tem mais chances de acontecer, é na formulação do questionário. “A qualidade no instrumento de pesquisa é fundamental. As perguntas precisam ser claras e não podem ser enviesadas”, lembra Priscila Branco.


Existem algumas formas de detectar também erros na coleta dos dados. Os questionários costumam ser respondidos, antes de ir às ruas, pelos próprios pesquisadores, que marcam um tempo médio para a obtenção das respostas. Então, é feito o monitoramento do tempo de resposta dos questionários, aqueles que diferem muito da média acendem um alerta. Há também a análise da polarização das respostas, isto é, para conferir se uma pessoa respondeu de forma padronizada (a mesma opção para todas as questões). Essas análises são feitas enquanto a pesquisa está em curso.

5. Eleições digitais têm se tornado desafios para as pesquisas

Nas eleições dos Estados Unidos, em 2016, a vitória de Donald Trump surpreendeu o mundo, inclusive colocando abaixo a tendência observada por várias pesquisas eleitorais prévias. Esse tem sido um dos argumentos para a criação de desinformações sobre as pesquisas. A CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, alerta, entretanto que há um equívoco no entendimento das pesquisas. Elas não se propõem a antecipar o resultado de uma eleição, mas mostrar o cenário no momento em que foram realizadas.


“A pesquisa é uma fotografia do momento e não tem o poder e nem a intenção de prever o resultado de uma eleição. Por isso, seus resultados não podem ser usados para prever o resultado das urnas”, ressalta. Segundo ela, é importante considerar que as opiniões mudam e se adaptam de acordo com a informação disponível e o contexto político. As pesquisas, nesse caso, seriam como fotografias que em sequência contam a história de um pleito.


Nesse sentido, um dos desafios atuais é captar as mudanças e movimentações de última hora, “que ocorrem de forma mais intensa a cada eleição, com a dinâmica das redes sociais”, diz Marcia. Para Priscila Branco, do Ipsos, essa é uma realidade a que os institutos estão mais passíveis com a digitalização da campanha dos candidatos. “Antigamente, você tinha uma campanha baseada na televisão, o tempo de exposição na TV era fundamental. A eleição de 2018 foi uma reviravolta nos processos que já conhecíamos. A comunicação direta dos políticos e partidos com as pessoas, por redes sociais, muda muito rapidamente o jogo eleitoral. Esse é um desafio para nós”, diz.

Cheque uma desinformação

Buscar a fonte original de uma afirmação é um passo importante ao checar informações e, agora, você já sabe como fazer. Se quiser verificar a quantidade de características de desinformação em boatos sobre política, saúde e outros temas de relevância para a sociedade, você pode usar o Confere.ai, a primeira ferramenta de checagem automática do Nordeste. Basta copiar e colar um link e jogar no campo de busca da plataforma, que ela te responderá com um medidor de desinformação. Assim, você evitará repassar mentiras por aí.

 

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