INVESTIGAÇÃO

Prefeito de Itamaracá e deputado estadual são investigados por lavagem de dinheiro em casas lotéricas

Documentos com detalhes das investigações foram revelados pela Justiça Federal de Pernambuco

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Publicado em 12/11/2020 às 21:57
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Ação da Polícia Federal (PF) mira suspeitos de usar casas lotéricas de propriedade de agentes políticos para lavagem de dinheiro com origem em desvios de recursos públicos e corrupção - FOTO: DIVULGAÇÃO/PF
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A Justiça Federal em Pernambuco (JFPE) divulgou, nesta quinta-feira (12), documentos que trazem os nomes do deputado estadual Guilherme Uchoa Júnior (PSB), filho do ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alepe) Guilherme Uchoa, que morreu em julho de 2018, e do prefeito de Itamaracá, Mosar Tato (PSB), genro do falecido deputado,  na lista de investigados da Polícia Federal em uma operação que apura o uso de casas lotéricas para lavagem de dinheiro decorrente de desvio de verba pública e de corrupção.

Os dois políticos foram alvo de mandados de busca e apreensão, assim como a viúva de Guilherme Uchoa, Eva Goes Uchoa Cavalcanti, e a filha dele, Giovana Maria Goes Uchoa Cavalcanti Barbosa, esposa de Mosar Tato. A investigação da Operação Mapa da Mina, deflagrada nessa quarta-feira (11), indica uma possível atuação dos parentes do ex-presidente da Alepe na prática de delitos de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, corrupção, peculato, fraude a licitações, dentre outros, em conluio, principalmente, com o policial militar Pércio Araújo Ferraz.

A família, segundo a investigação da Polícia Federal, se utilizaria de uma rede de casas lotéricas, de outras pessoas jurídicas e da influência política para dar aparência de licitude aos valores oriundos de crimes. Apurações apontam que mais de R$ 12 milhões foram transferidos das contas de vários investigados para as contas de cinco lotéricas de propriedade da família.

O policial Pércio e um outro homem identificado como Renato Correia de Lima seriam os líderes de uma organização criminosa voltada para o esquema de falsidade documental, agiotagem, corrupção, fraude a licitações, embaraço à investigação penal e outros, no intuito de favorecer empresas de um grupo de segurança privada.

Ocupando posto na Superintendência Militar e de Segurança Legislativa da Alepe, Pércio foi supostamente apadrinhado por Guilherme Uchoa, que teria permitido a entrada das empresas Alforge e Alfoservice  no universo de prestação de serviços a órgãos públicos, com o oferecimento de vantagens a gestores para o direcionamento de licitações, segundo a investigação. O policial teria movimentado em suas contas, no período de janeiro de 2012 a abril de 2018, a quantia de R$ 29.623.197,03, incompatível com seu salário de PM.

O JC está tentando contato com os investigados. O espaço segue aberto caso queiram se pronunciar sobre o caso. 

A Operação Mapa da Mina

A Polícia Federal, em parceria com a Controladoria Geral da União (CGU), deflagrou na manhã dessa quarta-feira (11) a Operação Mapa da Mina, que cumpriu 25 mandados de busca e apreensão, sendo 23 executados na Região Metropolitana do Recife, um em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, e outro em Floresta, no Sertão do Estado. Entre os bens apreendidos, estão carros de luxo. A ação mira suspeitos de usar casas lotéricas de propriedade de agentes políticos para lavagem de dinheiro com origem em desvios de recursos públicos e corrupção em Pernambuco. 

Segundo a CGU, possíveis irregularidades teriam ocorrido na 3ª Superintendência Regional da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e em outros órgãos públicos federais, estaduais e municipais do estado. 

De acordo com o Delegado Regional Executivo da PF, Bernardo Tores, empresas de um grupo empresarial teriam tido crescimento vertiginoso em poucos anos, por meio de fraudes de licitação de contratos públicos facilitadas por agentes políticos do Estado. "Eles participavam de licitações, algumas dessas, fraudadas, direcionadas em favor desse grupo, com o auxílio de agentes políticos pernambucanos que tinham influência em alguns desses órgãos", conta. Já os políticos recebiam sua parte no esquema através de casas lotéricas.

Investigações

A investigação que deu origem à “Mapa da Mina” foi iniciada em abril de 2018 com a deflagração da operação “Decimus”, cuja finalidade foi apurar crimes de uso de documentos ideologicamente falsos por parte dos responsáveis por um grupo de empresas de segurança e vigilância patrimonial.

À época, a PF descobriu que um grupo empresarial comandado por oficial da Polícia Militar de Pernambuco, com atuação na área de vigilância e de serviços gerais, teve crescimento econômico vertiginoso a partir de 2013, após firmar contratos com entidades públicas municipais, estaduais e federais, por meio de dispensas de licitação suspeitas ou processos licitatórios direcionados. De 2013 até 2020, duas das empresas do grupo já receberam aproximadamente R$ 175 milhões dos cofres públicos, dos três níveis da federação.

Segundo a PF, há indícios de que os agentes políticos alvos da “Mapa da Mina” atuam em parceria com o referido grupo empresarial a fim de direcionar licitações ou sua dispensa em favor de empresas do grupo. De acordo com a CGU, verificou-se que uma das empresas do grupo investigado foi beneficiada por irregularidades nas fases de verificação da habilitação e de análise de recursos em pregão realizado pela 3ª Superintendência Regional da Codevasf. Além disso, uma sequência de ‘chats’, obtida por meio de quebra de sigilo telemático, demonstrou tratativas entre representantes do grupo empresarial e empregados públicos da Companhia com o intuito de garantir, irregularmente, a manutenção de contrato já firmado entre as partes.

 

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Ação da Polícia Federal (PF) mira suspeitos de usar casas lotéricas de propriedade de agentes políticos para lavagem de dinheiro com origem em desvios de recursos públicos e corrupção - DIVULGAÇÃO/PF

Além disso, os investigadores descobriram que as empresas beneficiadas com os contratos públicos milionários transferem dinheiro rotineiramente para cinco casas lotéricas de propriedade dos agentes políticos envolvidos, mantidas apenas para viabilizar o processo de lavagem de dinheiro, já que as lotéricas não geram lucros reais para seus sócios. As somas transferidas já totalizam mais de R$ 14 milhões de reais e vinham sendo feitas desde 2013.

Se condenados, os alvos da operação podem responder pelos crimes de lavagem de dinheiro, fraudes a licitações, peculato e corrupção ativa. Outros detalhes da operação serão divulgados ainda nesta quarta-feira (11) em entrevista coletiva na Superintendência da PF em Pernambuco, na Av. Cais do Apolo, bairro do Recife, Centro da cidade.

Para o cumprimento dos mandados, cerca de 100 policiais federais, além de auditores da CGU, participaram da operação.

Impacto social

A CGU informou que apenas uma das empresas do grupo investigado já recebeu pagamentos da ordem de R$ 16 milhões de órgãos públicos federais localizados em Pernambuco, dos quais cerca de R$ 1,5 milhão transferido pela 3ª Superintendência Regional da Codevasf. Segundo o órgão, eventuais desvios de recursos da Companhia, mesmo aqueles destinados à sua área meio, comprometem a eficiência e a eficácia de sua atuação em ações relacionadas ao desenvolvimento da agricultura irrigada, à revitalização de bacias hidrográficas, à estruturação de atividades produtivas e à oferta de água para garantia da segurança hídrica.

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