Deputado federal

Daniel Coelho diz que Bolsonaro cria tumulto sobre voto eletrônico porque vê poucas chances de vencer em 2022

O deputado também disse acreditar que Lula não vencerá a eleição e que o Brasil vai encontrar outro caminho

Cássio Oliveira
Cássio Oliveira
Publicado em 02/07/2021 às 17:03
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MARYANNA OLIVEIRA/AG. CÂMARA
O deputado federal Daniel Coelho é líder do Cidadania na Câmara - FOTO: MARYANNA OLIVEIRA/AG. CÂMARA
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O líder do Cidadania na Câmara dos Deputados, Daniel Coelho, criticou, nesta sexta-feira (2), as falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que disse haver possibilidade de fraude nas eleições de 2022. 

Em entrevista à Rádio Jornal, Daniel afirmou que discussões sobre um sistema eleitoral ainda mais transparente são sempre bem-vindas. Porém, na visão do deputado, Bolsonaro fez ameaças e isso não pode acontecer.

"Uma coisa é como o voto se dá. Ninguém pode ser contra evoluir na transparência, mas dizer que terá problema, fazer ameaça, dizer que há fraude escancarada, é um absurdo completo. Se tem fraude, dissolve o Congresso, destitui presidente, governadores. Como diz que tem fraude se Bolsonaro há 30 anos participa de eleição, teve mandatos de deputado. Era em cima de fraude? Ele erra e erra muito na forma, poderia fazer debate sobre a transparência", disse.

Acho lamentável a fala (de Bolsonaro) e parece que ele não quer discutir o voto, quer criar tumulto. Vê chance de vitória pequena. Mas, acho que Lula também não ganha. O Brasil buscará outro caminho.
Daniel Coelho, líder do Cidadania

Live

A implantação do voto impresso auditável ainda em 2022 foi abordada, mais uma vez, pelo presidente em live transmitida em suas redes sociais nessa quinta-feira (1º). O chefe do Executivo voltou a defender a nova modalidade de voto e disse que o Supremo Tribunal Federal (STF) interfere no Poder Legislativo para derrotar a proposta.

“Eu entrego a faixa presidencial para qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa. Na fraude, não” , disse o presidente. E completou: “Querem nos impor goela abaixo para fazer voltar aquela quadrilha. Vão ter problemas, não é ameaça, é constatação. O povo não vai admitir isso aí”.

Sobre as falas do presidente, Daniel disse que enxerga retóricas e afirmou não acreditar que a democracia no Brasil corra risco. "Não acredito em uma aventura autoritária, não há contexto politico para governo autoritário hoje. Na época da ditadura, havia contexto, Chile, Argentina, parte da Europa discutindo comunismo, mas, hoje, o Brasil não tem como se sustentar isolado do mundo", comentou. 

Bolsonaro dizer que há fraude é narrativa equivocada e desesperada, vivemos uma pandemia e enquanto deveríamos focar em vencer a covid, ficamos em debate que não traz solução
Daniel Coelho

O deputado acredita que Bolsonaro quer manter seu eleitorado fiel para ir ao segundo turno contra Lula no próximo ano. "Nas últimas eleições ficou provado que você não precisa da maioria. As abstenções são crescentes então com um terço dos votos você vai ao segundo turno e, se manter isso, pode vencer. Bolsonaro tenta manter a base de um terço e aposta em um segundo turno no qual o antipetismo possa ser decisivo. É a estratégia de Lula, que quer ir ao segundo turno contra Bolsonaro. Por isso, a preocupação de Lula é não ter um terceiro candidato competitivo, compreendendo que a vitória dele é contra Bolsonaro. O desafio é dizer que não se vence por antecipação, precisa fazer com que as pessoas analisem e escolham o melhor e, quem sabe, ter opção diferente dessas dos dois polos", colocou Daniel. 

Supremo

Na porta do Palácio do Alvorada, Bolsonaro disse que "três ministros" do Supremo Tribunal Federal (STF) estariam empenhados numa "articulação" para barrar a impressão do voto. De acordo com o presidente, caso o voto impresso não seja implementado no pleito de 2022, "eles (os ministros) vão ter que apresentar uma maneira de ter eleições limpas". "Dinheiro tem, já está arranjado dinheiro para as eleições, para comprar impressoras", insistiu Bolsonaro.

Bolsonaro disse, ainda, que as condenações de Lula foram anuladas para que ele volte ao poder em 2022. "Tiraram o Lula da cadeia, tornaram elegível para ele ser presidente na fraude. Isso não vai acontecer", disse. "Como está aí, a fraude está escancarada. E não vai ser só para presidente não, vai ser para governador, senador, fraude", concluiu.

Após as críticas de Bolsonaro, o presidente do STF, ministro Luiz Fux, reafirmou a confiança no sistema eleitoral e lembrou a jurisprudência do Supremo sobre o assunto.“Nossas eleições sempre foram limpas. O próprio de presidente Bolsonaro foi eleito pela urna eletrônica em uma eleição limpa.”

Na última quarta-feira (30), líderes partidários, entre os quais legendas aliadas ao governo Jair Bolsonaro, como Ciro Nogueira do PP, se reuniram com o ministro do STF Alexandre de Moraes para discutir uma maneira de o assunto ser definido pelo Congresso, evitando a judicialização do tema. A convite de Moraes, que presidirá o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022, o ministro Gilmar Mendes também participou da conversa. 

Câmara dos Deputados

Sobre a possibilidade de a Câmara aprovar o voto auditável, Daniel Coelho disse ser difícil prever se o resultado será favorável ou não à proposta. Ele destacou que há muita desinformação sobre o assunto e que o importante é não deixar a democracia ser colocada em cheque. Recentemente, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que a discussão da Proposta de Emenda à Constituição 135/19, do voto impresso, não é sobre o fim das urnas eletrônicas, mas, sim, sobre o voto auditável.

Segundo ele, se a proposta for aprovada, será feita uma amostragem em alguns equipamentos para que algum mecanismo seja incorporado à urna eletrônica e que o voto seja impresso e verificado. Lira destacou, no entanto, que há seis eleições participa da votação eletrônica e nunca teve notícias de fraude, erro ou qualquer outra coisa que desqualifique a urna. “Hoje temos uma parte da sociedade e parte do Congresso que querem auditar o voto, e temos uma Justiça Eleitoral para dirimir essas dúvidas”, disse o presidente.

Aliado de Bolsonaro, o relator da PEC, deputado Filipe Barros (PSL-PR), apresentou substitutivo em que recomenda a adoção de uma urna eletrônica que permita a impressão do registro do voto, que depois será depositado em uma urna indevassável, sem contato manual do eleitor. No modelo proposto pelo relator, a apuração se dará após a votação, nas seções eleitorais, com o uso de equipamentos automatizados de contagem de votos, aptos à verificação visual. Para garantir o sigilo do voto, o texto proíbe o uso de qualquer elemento de identificação do eleitor na cédula impressa. Existe na Câmara uma Comissão Especial que analisa a proposta e realizará uma reunião na segunda-feira (5) para discussão e votação do parecer de Filipe Barros.

A deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS) adiantou que vai apresentar um voto em separado. Ela acusa o governo de tentar deslegitimar as eleições do ano que vem. "O voto já é auditável e o processo eleitoral brasileiro é reconhecido em vários países do mundo. Politicamente, o Brasil é o único país que teve presidente eleito a dizer que teve fraude no processo eleitoral", criticou Fernanda Melchionna.

Já a autora da PEC, deputada Bia Kicis (PSL-DF), elogiou o relatório de Filipe Barros. "A impressão do voto na urna eletrônica trará segurança, transparência e confiabilidade ao sistema que hoje padece de uma série de vulnerabilidades", comentou. "Hoje, o debate é entre técnicos de informática, e o eleitor foi afastado. Mas países mais tecnológicos do mundo, como a Alemanha e a Índia, rechaçaram nosso sistema, porque o eleitor precisa enxergar com seus próprios olhos o voto", argumentou.

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