BRASIL

Modelo de fuzil, que Bolsonaro sugeriu para a população comprar ao invés de feijão, custa o equivalente a 1.500 kg do alimento

Na última sexta-feira (27), presidente chamou de "idiota", quem diz que é melhor comprar feijão em vez de fuzil.

Estadão Conteúdo Margarida Azevedo
Estadão Conteúdo
Margarida Azevedo
Publicado em 28/08/2021 às 11:04
EVARISTO SA / AFP
Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) desembarca no Recife na manhã desta sexta-feira (3) - FOTO: EVARISTO SA / AFP
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Com aumento da pobreza e do desemprego no Brasil, agravado sobretudo pela pandemia de covid-19 - basta percorrer as principais capitais e perceber a quantidade de pessoas em semáforos com cartazes pedindo comida, emprego e dinheiro - o presidente da República, Jair Bolsonaro, chamou de "idiota", na última sexta-feira (27), quem diz que é melhor comprar feijão em vez de fuzil. O tipo de arma sugerido por ele, numa conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, o modelo 762, custa, em sites especializados, cerca de R$ 12 mil. Considerando o valor médio de um quilo de feijão, R$ 8, com o dinheiro de um fuzil desse dá para comprar uma tonelada e meia de feijão.

Se a comparação for feita com a cesta básica, é possível adquirir 25 cestas, levando em conta o valor de R$ 487, preço médio cobrado no Recife, em julho passado, de acordo com levantamento do Diese, Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Ou seja: com o gasto de um fuzil seria possível alimentar, com uma cesta para cada, 25 famílias de quatro pessoas (dois adultos e duas crianças), o parâmetro usado pelo Dieese para fazer o cálculo.

"Tem que todo mundo comprar fuzil, pô! Povo armado jamais será escravizado", afirmou Bolsonaro, ao conversar com eleitores no Palácio da Alvorada. Ele estará em Pernambuco na próxima semana. "Eu sei que custa caro. Daí tem um idiota que diz "ah, tem que comprar feijão?. Cara, se você não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar", disse ele, antes de embarcar para Goiânia. Segundo o IBGE, 14,8 milhões de pessoas estão buscando um trabalho no País, baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada mês passado.

A declaração de Bolsonaro foi em resposta a um questionamento de um apoiador sobre os CACs, grupo que inclui colecionadores, atiradores desportivos e caçadores. "O CAC está podendo comprar fuzil. O CAC que é fazendeiro compra fuzil 762", afirmou o presidente. A compra desse tipo de arma, no entanto, é proibida para a maior parte dos cidadãos.

AUMENTO DA VIOLÊNCIA

Em agosto de 2019, por meio de uma portaria, o Exército regulamentou que tipos de armas são de uso permitido para civis. Isso ocorreu após Bolsonaro publicar uma série de decretos que flexibilizavam acesso e porte. A maior parte das armas permitidas pelo Exército é de pistolas e revólveres, mas também há na lista carabinas e rifles de longo alcance. Calibres como o 5.56 mm e o 7.62 mm, usados em fuzis como o AR-15, são de uso restrito das Forças Armadas e de polícias militares.

O aumento na quantidade de armas de fogo com civis é um dos fatores que levaram a uma alta no número de homicídios no ano passado, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O Estadão mostrou, em julho, que houve um crescimento no uso de armas em assassinatos registrados no ano passado. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020 apontou 186.071 novos registros de armas de fogo na Polícia Federal no ano passado - número 97,1% maior em relação ao ano anterior.

No exterior e no Brasil, estudos científicos também apontaram para taxas de violência maiores em lugares onde o acesso a armas de fogo é mais fácil. Em 2018, um relatório do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos analisou estatísticas criminais de 1977 a 2014 e as leis de porte de armas em mais de 30 Estados americanos. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que Estados mais permissivos com porte de arma chegavam a taxas de crimes violentos até 15% maiores do que aqueles que restringiam o uso.

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