Legislativo

Médicos consideram 'irresponsabilidade' realizar Carnaval 2022

Comissão Especial sobre a retomada do Carnaval, São João e demais grandes eventos, da Câmara do Recife, ouviu nesta segunda-feira (13) eixo sanitário sobre o tema

Luisa Farias
Luisa Farias
Publicado em 13/12/2021 às 21:09
BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
O posicionamento contrário ao Carnaval no próximo ano foi unanimidade entre todos os médicos participantes da reunião - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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"Eu não quero passar outra noite em claro tendo que entubar pacientes". A declaração é de Filipe Prohaska, chefe da Triagem de Doenças Infecto-contagiosas do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (UPE), sobre as possíveis consequências da realização do Carnaval de 2022. 

Filipe foi um dos especialistas da área da saúde que falaram durante a reunião da Comissão Especial sobre a retomada do Carnaval, São João e demais grandes eventos do Recife, realizada na Câmara do Recife nesta segunda-feira (13).

Desta vez, o grupo ouviu o eixo sanitário, depois de uma reunião com o setor artístico-cultural e outra com parlamentares de outros municípios do país onde há tradição de Carnaval. No próximo dia 21 de dezembro, eles apresentam um relatório parcial sobre o tema para o prefeito do Recife, João Campos (PSB). 

"Eu não quero ter que ligar para os familiares para dar notícias por telefone, que é uma forma degradante, desumana de dizer que você perdeu um pai, um ente querido por telefone, porque você não podia deixar as pessoas irem para o hospital", completou. 

O posicionamento contrário ao Carnaval no próximo ano foi unanimidade entre todos os médicos participantes da reunião, ao contrário de reuniões anteriores da comissão, em que representantes da cadeia produtiva e do poder público admitiram a execução da festa, mas em outros moldes: em ambientes controlados e com exigência do passaporte da vacina. 

Mas segundo defendeu Carlos Brito, professor adjunto de clínica médica da UFPE e da pós-graduação de Medicina Tropical da UFPE, apresentação do comprovante de vacinação em eventos com aglomeração não traz segurança alguma diante da chegada da variante ômicron, que será inevitável em todo mundo. 

"Além da transmissibilidade alta, os estudos mostram que apenas duas doses não são suficientes para produzir anticorpos e se defender contra a Ômicron, por conta das mutações que ela sofreu", disse. "A cada semana países novos são atingidos (pela Ômicron), nós já temos aqui 11 cepas confirmadas. As do Brasil que foram confirmadas foram em pacientes vacinados. Os trabalhos publicados em Hong Kong, os dois primeiros casos demonstrados lá eram pacientes vacinados", completou. 

Eduardo Jorge, membro dos comitês técnicos de assessoramento das vacinas contra a covid-19 da secretaria Estadual de Pernambuco e do Ministério da Saúde, foi objetivo ao dizer que considera uma irresponsabilidade sequer achar que há possibilidade de haver Carnaval no próximo ano. 

"É impossível a gente ter uma festa daqui a dois meses que estimula o não uso de máscaras, estimula a disseminação e é muito provável que nos próximos 15 dias, infelizmente, nós passaremos a ter aumento de número de casos", disse. 

Para Eduardo, a aplicação da terceira dose do imunizante é essencial para combater a disseminação da ômicron, mas não a "salvação da lavoura". "Precisamos de máscara, distanciamento, evitar aglomeração, entre elas o Carnaval pernambucano", cravou. 

Posicionamento

Também estiveram na reunião representantes de instituições que já emitiram publicamente notas técnicas alertando para os riscos da realização do Carnaval, a exemplo do Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco (Cremepe), do Conselho Regional de Biomedicina 2ª Região, do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) e o Comitê Científico do Consórcio Nordeste. 

"A pandemia não acabou. Pelos dados até agora reunidos, ela está longe de acabar. As pessoas dizem 'Ah, tem que conviver com ela'. Mas a gente não tem que conviver com a morte, a gente tem que conviver com a vida, com a precaução, com as medidas. Nós estamos aqui num ambiente, somos 30, 40, talvez, todo mundo de máscara. Como é que daqui a dois meses vai pode estar todo mundo sem máscara? Em uma festa privada ou pública, seja lá como for", afirmou Luiz Arraes, membro do comitê científico do Consórcio Nordeste. 

O vice-presidente do Conselho Regional de Biomedicina 2ª Região, André Silva, disse acreditar que, se o poder público optar por fazer o Carnaval em 2022 sem o controle da pandemia, isso pode ter um efeito cascata nas festas dos anos seguintes. 

"A gente pode não ter mais carnaval, porque a coisa ficar tão séria, é só a gente afrouxar nas medidas e a gente não vai ter mais carnaval em 2023, 2024, 2025 e 2026, pode botar década de 20 sem carnaval. Se a gente quer que o Carnaval retorne, a gente tem que não permitir que ele ocorra esse ano e não apenas o Carnaval, qualquer tipo de evento que causa aglomeração, as prévias, tudo isso não deveria estar acontecendo", alertou. 

A presidente do Simepe, Cláudia Beatriz, questionou qual seria o controle da Vigilância Sanitária sobre o cumprimento dos protocolos durante uma festa pública e aberta. "Em nome dos médicos, que se articularam, que se mobilizaram, que foram para o enfrentamento, a gente faz um apelo a quem pode politicamente decidir se vai ter ou se não vai ter carnaval, decidir com relação aos eventos que aglomeram. A gente estaria promovendo sim a disseminação, a propagação desse vírus", afirmou. 

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