SPFW - Ronaldo Fraga fez ato político em desfile de só um vestido e 28 modelos trans

Romero Rafael
Romero Rafael
Publicado em 27/10/2016 às 14:11
Ronaldo Fraga, emocionado, com as modelos ao fim do desfile - Fotos: Marcelo Soubhia/FOTOSITE
Ronaldo Fraga, emocionado, com as modelos ao fim do desfile - Fotos: Marcelo Soubhia/FOTOSITE
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São Paulo - Selfie é o tipo de fotografia mais comum de se flagrar numa andada pela São Paulo Fashion Week. Quando não mostra a passarela, captando o glamour que há nela e o privilégio de estar ali, ou ainda os looks cheios das tendências, o convidado mostra-se em selfies - ou fazendo poses. Ele olha pra si mesmo. Sempre. Ou então olha para a roupa do outro. Ronaldo Fraga, no entanto, é sempre um respiro para isso. O estilista mineiro, coleção a coleção, convoca a gente a olhar para além de si e das tendências e do glamour. Nesta temporada, ele disse, inclusive, que o miolo da coleção não está nas roupas, mas na história de quem as veste. "Para todos, a roupa deveria ser um vetor de apropriação do ser", disse, em gravação que introduziu o desfile desta quarta (26), no Theatro São Pedro.

Ao fim, as modelos surgiram de lingerie no palco dançando ao som de "Bandolins" - Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE Ao fim, as modelos surgiram no palco de lingerie da Oh Studio dançando ao som de "Bandolins": "Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse ao som dos bandolins"; "Ela teimou e enfrentou o mundo se rodopiando ao som dos bandolins"

Na passarela, 28 mulheres trans. Uma delas versa entre se vestir de homem e de mulher, o que o dicionário denomina de transgênero. É sintomático: a discussão sobre gênero que vem ganhando espaço nos meios de comunicação e interação, e que vem dando informação suficiente pra gente saber a diferença entre transexual e transgênero, não quer rotular, mas falar sobre liberdade e libertação. E é sobre isso a coleção de Ronaldo Fraga. "Não raro, transgêneros se recordam como um momento libertador aquele em que, finalmente, usaram o primeiro vestido. Neste universo complexo de gênero, identificação, corpo e desejo, a roupa é um escape", explicou na gravação.

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O nome da coleção, El dia que me quieras, é uma referência não ao tango de Gardel, mas a uma loja que existiu em Itabuna, na Bahia, de Ney Galvão, no início dos anos 70, famosa por atrair as travestis de toda a região a fim de perucas, botas, vestidos... E pelo fato de o foco estar na pessoa, o estilista trabalhou a coleção com um só vestido. A mesma modelagem foi sendo trabalhada, uma a uma, com referências do glamour feminino das décadas de 20, 30 e 40. O estilista fez pinturas a partir de canetas e lápis de cor. O desfile ocorreu ao som de Bandolins, de Oswaldo Montenegro, e foi um espetáculo de emocionar... Ao fim, lágrimas e lágrimas, no palco e na plateia. "O mundo não precisa de mais um desfile", disse ele depois, como reflexão, confirmando que fez, sim, um ato político.

Assista:

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Leia a transcrição de parte do áudio em que Ronaldo Fraga apresenta a coleção:

No Brasil, a população trans é diariamente dizimada. Segundo a ONG Transgender Europe, somos o país onde mais ocorre assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo. Se o feminino representa aquilo que é desvalorizado socialmente, ainda mais desvalorizado é o homem que se identifica com o feminino. Desafiar a crença da maioria, segundo a qual a identidade de gênero é expressão de cromossomos e hormônios. A violência insurge contra quem não se encaixa nessa representação. Durante toda a vida uma pessoa trans luta para ser reconhecida por um gênero diferente daquele de nascimento. Em nossas cidades, a essas pessoas são negados registro de nome e até o banheiro público com o qual se identifica. O mesmo acontece na escola, no trabalho...

Mas o que isso tem a ver com o desfile na São Paulo Fashion Week? Bom, a moda tem o poder não só de ver poesia em terreno árido como também de lançar luz sobre a face da roupa que nega encontrar uma forma de libertação. Se aqui estamos falando de corpo como prisão do desejo, a roupa funciona como chave. Não raro, transgêneros se recordam como um momento libertador aquele em que, finalmente, usaram o primeiro vestido. Vocês verão uma coleção exclusivamente composta pelo mesmo vestido. Ela lembra o feminino de épocas glamorosas das décadas de 20, 30 e 40. Mas a história desse desfile não está na roupa, está em quem as veste. Neste universo complexo de gênero, identificação, corpo e desejo, a roupa é um escape. Para todos, aliás, e sempre, a roupa deveria ser um vetor de apropriação do ser. Ela é capaz de libertar, como mostra a memória do simples uso da primeira saia, do primeiro salto, do primeiro batom, e de outros códigos que são, direta e inexplicavelmente, esse ser que muita gente chama de alma."

Ronaldo Fraga

Veja imagens do desfile:

Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE - Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE
Ronaldo Fraga -
Valentina Sampaio - Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE - Valentina Sampaio - Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE
Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE - Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE
Ronaldo Fraga -
Ronaldo Fraga -
Ronaldo Fraga -

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