'Hoje o Recife amanheceu menor', por Cida Pedrosa, vencedora do Jabuti

Augusto Tenório
Augusto Tenório
Publicado em 13/02/2021 às 6:00
Recife, cenário da poesia de Cida Pedrosa sobre a ausência do Carnaval (Imagem: Leo Motta/JC Imagem)
Recife, cenário da poesia de Cida Pedrosa sobre a ausência do Carnaval (Imagem: Leo Motta/JC Imagem)
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Hoje o Recife amanheceu menor, poesia exclusiva de Cida Pedrosa para o Social1.


Hoje não tem bênçãos. Fotografias a teus pés. Palavras de apreço ou de escárnio. Não vai haver polêmicas, pois o time não entrou em campo, a torcida está em casa e o mascote não se vestiu para o gramado. Cruzaremos a ponte com os pés de segunda-feira, cara de trabalho e sem olhar para o céu. O transito estará igual e as falas serão miúdas e envergonhadas. As cores estarão guardadas em maleiros junto com bolinhas de naftalina e as famílias não renovarão as máscaras. Sem confete, serpentinas e apitos. Sem ambulantes, pregões de cerveja e bêbados. Sem palhaços, lobisomens, colombinas e mulher maravilha.

Hoje o Recife nasceu menor e chora - chora – chora. Chora, carnavalescamente, a falta do galo que nos acorda, nos anima, nos engrandece, nos põe no mundo e diz da alegria de uma gente que faz da rua palco e passarela para pés ligeiros, para pés aflitos, para pés que creem na liberdade-tempo do Carnaval de milhões.

Hoje eu me tranco no quarto e, contrita, faço a oração do folião: Meu Deus, dai-me o melhor passo, a melhor alegria, a delicadeza do encontro, a certeza de que, no próximo ano, estaremos nas ruas e nos braços uns dos outros e que o galo espraiará seu canto pelas águas do Capibaribe.

CIDA PEDROSA é natural de Bodocó. Ela é poetisa e vencedora do Prêmio Jabuti 2020 na categoria poesia com Solo para Vialejo (Cepe, 2019).

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