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'Bolsonaro não dá a mínima para o combate à corrupção', diz Moro, no Recife

Lula também foi alvo de ironias na palestra do Recife

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 05/12/2021 às 23:47
ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Palestra e lançamento do livro de Sergio Moro no Teatro do Shopping Rio Mar - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Moro fez um monte de ironias com o presidente Bolsonaro, na sua palestra, no teatro Rio Mar, no Recife, neste domingo, por ocasião do lançamento de seu livro na capital pernambucana. Em alguma das oportunidades, as críticas foram diretas.

 "O presidente não dá a mínima para o combate à corrupção. Fez tudo aquilo que disse que não ia fazer", afirmou, após historiar a atuação dele no Ministério da Justiça e derrotas no congresso em iniciativas como o projeto anticrime, de sua pasta. Ele reclamou que chegou a receber orientação de ministros do governo, para não se envolver na polêmica discussão, no que ele retrucava que não poderia deixar de se envolver, sob pena de enfraquecer o combate à corrupção.

"A minha missão mais importante era garantir os avanços do combate à corrupção, consolidar os avanços, como a prisão em segunda instância. O presidente havia sido eleito com esta demanda e ele não dava à mínima"

Bolsonaro sabotador

Moro usou um exemplo de Paulo Guedes, o projeto de reforma da Previdência, para exemplificar como agia Bolsonaro. "Paulo Guedes vai se ferrar com este projeto, ele me disse, usando outro verbo. E eu pensava... este é um projeto do ministro ou do presidente, do governo? É normal ter dificuldades no Congresso, faz parte, mas não tem como vencer se você não tiver o apoio do presidente. No meu caso, não era apenas falta de apoio, era sabotagem", afirmou.

"As pessoas me perguntam se este livro é minha versão dos fatos. Este livro são os fatos", afirmou, sob aplausos de uma plateia de admiradores. No começo da sessão, mesmo com o atraso em relação ao horário marcado, ele foi aplaudido de pé, embora no livro ele diga que não se deve buscar salvadores da pátria.

Moro então agradeceu a plateia animada.

Numa das primeiras críticas ao presidente, Moro lamentou a atuação do governo na pandemia e as mortes elevadas. Ele arrancou aplausos da plateia quando disse que a comunicação do governo era ruim e que isto era um eufemismo, em relação ao governo federal. Nesta hora, já emendou com críticas a situação econômica. "A situação ruim é parte culpa da pandemia, mas em outra parte é a condução ruim da economia, o emprego não cresce, a renda cai", disse, sem apontar saídas, entretanto.

Na sua palestra de mais de duas horas, Moro disse que o mote do livro era o desmantelamento do combate à corrupção no Brasil.

"O livro é um projeto independente... Este livro funcionou como uma terapia, depois de sair do governo, mas não é uma autobiografia. Tem coisas que vão ficar para depois. A historia não acaba aqui", ameaçou, afirmando que pensava em um volume dois do livro.

Mais ironias com Bolsonaro

Noutro dado momento, no começo das perguntas de uma colunista nacional convidada pela produção, Moro foi instado a falar sobre o Coaf, órgão do Ministério da Fazenda que Bolsonaro decidiu colocar no começo do governo sob o Ministério da Justiça e depois recuou, aparentemente com receio de que pudesse prejudicar o filho senador Flávio Bolsonaro. Foi por conta de um relatório de inteligência do órgão que o MP do Rio de Janeiro começou a investigar o filho do presidente.

"Bolsonaro não sabia o que era o Coaf. Acho que agora ele já sabe", ironizou, sendo aplaudido. "O pior é que isto (a afirmação) não foi uma piada", disse. "O problema é que o povo fantasiava, dizia que eu iria fazer dossiês. Eu respeitava a autonomia do Coaf. Só a gente defendia isto. Depois, a Câmara dos Deputados aprovou a volta do Coaf para a Fazenda. Foi a partir deste momento que  gente viu que as coisas não iam dar certo. Vejam hoje que a Polícia Federal não é a mesma Polícia Federal da lava Jato. A gente só vê busca e apreensão. E a prisão, cadê?", criticou, sugerindo que falta autonomia.

Moro usou ainda de ironia ao responder uma pergunta sobre a frase de Bolsonaro de que acabou com a corrupção no Brasil. "É um governo muito virtuoso"

Folclore e gestão

"No começo (do governo Bolsonaro), a gente achava que ia ser so folclore e não iria interferir na presidência"

 

Ironias com Lula

Numa das primeiras falas, Moro alvejou Lula. "As pessoas podem ser enganadas, mas não o tempo todo. Querer dizer que não teve mensalão e petrolão? Não podem reescrever a história", afirmou. "Havia gente que roubava a Petrobras como nunca antes na história deste pais", afirmou, usando um bordão de Lula, para causas sociais do seu governo.

Na palestra, ele defendeu a divulgação do áudio de Dilma em conversa com Lula. "Não tenho porque ficar guardando segredo sujo de outras pessoas", afirmou, explicando que a iniicativa de Dilma na época lhe pareceu obstrução da Justiça.

Ao explicar que foi morar e trabalhar nos Estados Unidos, depois de sair do governo, Moro brincou com as críticas que recebeu. "Era o agente da cia, comunista e empregado da Globo. Você imagina o tamanho do contracheque que devia receber", ironizou. O PT o acusava de ter quebrado a Petrobras por interesse dos EUA.

Outras vezes a crítica era direta. "Esses escândalos de corrupção começaram no governo do PT. Teve compra de apoio político no governo do PT. Quem era o presidente?

Depois de citar o líder do PT, Moro defendeu que, para seguir adiante, tem que reconhecer os erros do passado. Ele citou o partido de Angela Merkel na Alemanha como exemplo. "Há sempre uma luz. Não tem como alcançar redenção sem remissão"

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