RIO DE JANEIRO

Sobe para 28 o número de mortos em operação da polícia civil no Jacarezinho

Moradores relataram, nas redes sociais, que houve abuso policial na ação. As denúncias vão desde invasão de residências e confisco de celulares até execução de pessoas

Estadão Conteúdo
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Publicado em 07/05/2021 às 21:29
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JOSE LUCENA//ESTADÃO CONTEÚDO
A operação policial teve como alvo um grupo que recrutava crianças e adolescentes para o tráfico de drogas, roubos, sequestros e assassinatos. - FOTO: JOSE LUCENA//ESTADÃO CONTEÚDO
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O número de pessoas mortas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro durante operação realizada na quinta-feira (6), na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio, subiu para 27 no final da tarde desta sexta-feira (7). Até esta quinta-feira eram 24. Um policial civil também morreu durante a operação, fazendo o número total de óbitos chegar a 28. A Polícia Civil não esclareceu em quais circunstâncias essas três novas vítimas foram localizadas.

Mais cedo, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu ao procurador-geral da República, Augusto Aras, uma investigação sobre a operação. O magistrado alertou Aras que a operação no Jacarezinho era um caso grave e que há indícios de execução arbitrária no episódio. Um ofício semelhante foi enviado ao procurador-geral de Justiça do Estado do Rio, Luciano Oliveira Mattos de Souza.

Moradores relataram, nas redes sociais, que houve abuso policial na ação. As denúncias vão desde invasão de residências e confisco de celulares até execução de pessoas e descaracterização das cenas onde houve mortes. "Ouvimos muitos relatos de violação de domicílios, mortes. Muitos muros e portas cravejados de balas", conta Maria Júlia Miranda, defensora pública.

Operação

Num dos lugares mais pobres e violentos do Rio, as vítimas foram mortas durante a operação policial. Alguns corpos foram retirados em carrinhos de mão pelos próprios policiais. Um dos mortos foi o inspetor da Polícia Civil Leonardo de Mello Frias, baleado na cabeça. Em plena pandemia e com uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) restringindo operações a casos "excepcionais", a ação provocou críticas de especialistas de segurança e de entidades de defesa dos direitos humanos, como a Human Rights Watch, e será investigada pelo Ministério Público do Rio.

Tudo aconteceu a cerca de cem metros da Cidade da Polícia, que fica no bairro. Ao amanhecer, por volta das 5h, os policiais começaram a chegar. O agente Leonardo foi morto logo na entrada da comunidade, de um tiro que teria partido de uma laje. O motivo da operação, que durou cerca de nove horas, era uma investigação sobre arregimentação pelo tráfico de crianças de até 12 anos, que circulariam pela favela com fuzis, além de atos "terroristas" atribuídos à quadrilha, como sequestro de trens da Supervia.

Durante o confronto, o desespero se espalhou pela região e passageiros em um vagão do metrô se jogaram no chão, mas não foi possível evitar que dois fossem feridos por estilhaços. Dois policiais foram baleados. E uma terceira pessoa foi atingida por um tiro no pé dentro de casa. A violência da manhã também pegou de surpresa uma noiva, que se preparava para ir para o cartório, e uma gestante em trabalho de parto teve que enfrentar o tiroteio para ir ao hospital.

Foi a operação mais letal da história do Rio. A marca anterior era de uma ação no Complexo do Alemão, em 2007, quando 19 pessoas morreram. Um levantamento do Globo, com base nos microdados do Instituto de Segurança Pública (ISP), revela que, desde então, o dia mais letal em decorrência de operações policiais foi 15 de outubro do ano passado, com 25 homicídios, registrados em oito ações em locais diferentes do estado.

 

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