PASTORA E EX-DEPUTADA

Relembre a história de Flordelis, a 'supermãe' de 55 filhos presa por mandar matar o marido

Antes vista como uma heroína por adotar mais de 50 crianças vulneráveis, Flordelis dos Santos acabou se tornando a vilã de uma trama que a levou à prisão

AFP
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Publicado em 14/08/2021 às 16:08
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Fernando Frazão/Agência Brasil
Flordelis foi presa nessa sexta-feira (13) - FOTO: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Antes vista como uma heroína por adotar mais de 50 crianças vulneráveis, Flordelis dos Santos acabou se tornando a vilã de uma trama que a levou à prisão nessa sexta-feira (13), após ter cassado seu mandato na Câmara dos Deputados, acusada de ser a mandante da morte do marido.

Nascida no Jacarezinho, comunidade violenta da zona norte do Rio de Janeiro, Flordelis, de 60 anos, abrigou desde seus 20 e tantos 51 crianças em situação de rua e vítimas de violência ou abusos. Entre elas, resgatou uma menina do lixo e deu esperanças a outras 37 crianças em um único dia.

Sua história inspirou em 2009 um filme biográfico que amplificou seu trabalho humanitário. Flordelis, que também teve quatro filhos biológicos, era conhecida por escapar da justiça por abrigar menores ilegalmente até que uma advogada e uma ONG a ajudaram a regularizar as adoções.

Uma aura pairava sobre esta poderosa cantora gospel negra e cujas longas perucas de cabelos castanhos lhe davam um ar juvenil. Mas a atração que conseguia nos altares de igreja evangélica fundada por ela, Ministério Flordelis, desapareceu quando seu marido foi assassinado.

Em 15 de junho de 2019, o pastor Anderson do Carmo levou 30 tiros na garagem da casa da família em Niterói, região metropolitana do Rio, ao voltar de um passeio com Flordelis. Ao chegar, ela subiu as escadas e não voltou a vê-lo com vida, relatou.

 "Orem por mim" 

A então deputada, que cantou com voz firme no funeral, declarou que seu marido teria sido vítima de latrocínio (roubo seguido de morte). Mas os investigadores revelaram uma trama de novela e concluíram que Flordelis planejou o crime contra a vida de Anderson, de 42 anos.

"Estou indo presa por algo que não fiz, que não pratiquei (...) Orem por mim", suplicou ela em uma transmissão no Instagram antes de ser presa em casa.

A hoje ex-deputada, eleita em 2018 pelo Partido Social Democrático (PSD, conservador), gozou de sua imunidade parlamentar até a quarta-feira, quando seus colegas decidiram cassá-la após concluir que "não há dúvida" de sua participação no crime.

Desde outubro de 2020, ela escondia uma tornozeleira eletrônica debaixo das saias que veste habitualmente.

Sete filhos e uma neta estão presos pelo crime. Dois de seus filhos biológicos confessaram participação: Flávio disse ter atirado; Simone conseguiu o dinheiro para comprar a arma que matou o homem que abusava dela.

Antes dos tiros fatais, o pastor foi alvo de várias tentativas de homicídio orquestradas no lar que compartilhava com Flordelis e mais de 20 filhos. Ele sobreviveu a pelo menos seis envenenamentos e conseguiu escapar de um pistoleiro, segundo a reconstituição das investigações.

Anderson, 16 anos mais novo que Flordelis, foi um dos meninos adotados e depois seu genro quando manteve um relacionamento com uma das irmãs adotivas.

"Ele começou por ter uma grande admiração por mim, que se transformou em amor", disse a pastora em uma entrevista ao falar do pai de um de seus filhos.

Já como líder evangélico, Anderson dirigiu o projeto religioso em torno de Flordelis, que chegou a ter seis templos e milhares de seguidores. Além disso, foi o principal articulador de sua breve carreira política.

Ele controlava as finanças da igreja e da família, o que confrontou o casal em uma disputa por poder e dinheiro, detalharam os investigadores.

 "Cabeça erguida" 

Embora posassem juntos para não afetar seus interesses, a morte do pastor acabou com a imagem de mulher altruísta e calorosa, depois considerada fria e manipuladora, capaz de submeter fiéis a 'processos de purificação' que incluíam fazer sexo com ela, segundo versões que Flordelis refuta.

Floredelis foi uma das mulheres mais votadas em 2018 para a Câmara dos Deputados, uma ambição que surgiu em um sonho no qual ela via seu rosto em uma cédula, contou.

Agora, "é a segunda mulher na história da Câmara cassada por algum tipo de crime", depois de Raquel Cândido e Silva, cassada em 1994 por corrupção, afirma Edson Sardinha, chefe de redação do Congresso em Foco.

A religiosa, integrante da bancada evangélica, foi uma deputada apagada, do chamado 'baixo clero', explica Sardinha. Após sua cassação, deixou o plenário "com a cabeça erguida", e uma advertência: "Vão se arrepender".

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