ENTREVISTA

Sidney Rocha fala sobre a homenagem da Fenelivro

O escritor é um dos nomes celebrados pela Feira Nordestina do Livro

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 19/09/2018 às 8:30
Divulgação
O escritor é um dos nomes celebrados pela Feira Nordestina do Livro - FOTO: Divulgação
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Homenageado pela Fenelivro ao lado do poeta Marcus Accioly (in memoriam), o escritor Sidney Rocha é um escritor incansável e inquieto, como define o curador Evaldo Costa. Em entrevista a Diogo Guedes, o autor de Fernanflor e O Destino das Metáforas, entre outros livros, fala sobre sua trajetória, o seu próximo romance, A Estética da Indiferença, e o mundo atual. “Todo o escritor digno deste nome se coloca sempre no extremo”, afirma.

ENTREVISTA

JORNAL DO COMMERCIO – O que representa para você ser homenageado pela Fenelivro?
SIDNEY ROCHA – Representou antes de tudo uma surpresa, uma boa surpresa, e agora sinto que é uma alegria plural, daquele tipo que não se desliga da ideia de honra, respeito, reconhecimento, uma espécie de prêmio em sua riqueza e seu simbolismo. Um evento do relevo e do prestígio da Fenelivro quando destaca os seus homenageados – e sou apenas um entre eles – o faz com muita seriedade e critério. Assim, me sinto também irmanado aos autores, aos leitores, aos que gostam do que escrevo.

JC – Evaldo Costa destacou o seu trabalho incansável e inquieto com a literatura, não só escrevendo, mas apoiando, editando, ensinando. Ser escritor no século 21 é exaustivo também? Como é possível dar conta de tantas facetas?
SIDNEY – Todas essas atividades derivam da mesma paixão que é a de escrever e ler. Sempre pensei nessas coisas como naturalmente ligadas. Nunca pensei nisso como algo exaustivo ou cansativo, talvez porque veja a literatura de modo muito objetivo. Se olharmos um pouco no tempo vamos ver que poetas e cineastas russos do começo do século passado faziam algo parecido com o que faço, porque para eles, do mesmo jeito que para mim, a literatura não é aquele sorriso fútil da sociedade que tanto reivindicava um autor brasileiro e parnasiano.

JC – Quais foram os encontros – literários ou não – fundamentais para sua trajetória na escrita? Como Pernambuco marca presença (mesmo que não explícita) na sua literatura?
SIDNEY – Todos os encontros foram fundamentais, e não afirmo isso como uma forma disfarçada de demagogia. Digo assim porque se os artistas são as tais antenas como dizia Erza Pound, entendo que a minha trajetória é feita de cada uma das captações, algumas maiores, outras menores, mas, sem dúvida, há algo assim em todos os encontros, e são úteis, ora de modo consciente, ora inconsciente, para o que venho escrevendo. Pernambuco marca presença de diversas maneiras, e em vários níveis. Aqui estou desde o começo da década de 1980, e creio que em todos os livros que escrevi desde Sofia há alguma presença pernambucana, às vezes, numa cena, num personagem, numa atmosfera, numa figura de linguagem. Mesmo não tendo feito um inventário disso, sei que há, e é inevitável que assim seja.

JC – A Fenelivro fala neste ano sobre Uma Nova Era dos Extremos. Acredita que vivemos em um período de extremos? Como pode um escritor agir diante disso?
SIDNEY – Uma pergunta difícil, que remete ao título do livro do historiador Eric Hobsbawm: The Age of Extremes, que foi como ele chamou o século 20, que teria, na sua visão começado em 1914 e terminado em 1991, com a derrocada do chamado socialismo real. Não há dúvida de que o século 21 começou com a explosão extremista do 11 de setembro de 2001, e não no primeiro de janeiro desse ano, como manda o calendário. De lá pra cá, vemos os extremos de diversos níveis, nos aspectos políticos e sociais, mas é melhor deixar isso para análise de sociólogos, historiadores e cientistas políticos. Um escritor vive outro tipo de extremo. Até no sentido literal, de escassez, a famosa página em branco, e nenhuma ideia, ou a superabundância de temas. Escritores gordos, escritores magros. Mas prefiro o aspecto mais sutil disso, que é de saber que todo o escritor digno deste nome se coloca sempre no extremo, gosta de ultrapassar os limites, mesmo que seja somente o ponto mais próximo do abismo, no uso que faz da linguagem, e na exigência emocional que é escrever uma simples frase que possa implodir ou explodir a consciência, a sensação, a ideia do mundo.  

JC – Você tem um novo romance pronto para ser publicado, chamado A Estética da Indiferença. O que o leitor pode esperar da obra? Vivemos em meio a uma indiferença programática mesmo?
SIDNEY – A Estética da Indiferença é o segundo livro de uma trilogia que comecei com a publicação do romance Fernanflor. O personagem principal nesse livro é um pintor. No livro novo há dois com a mesma importância, como se fossem ying e yang, ambos de algum modo ligados ao mundo do espetáculo, que é o tipo da sociedade em que vivemos, como se gostássemos mais da representação do que da realidade. A indiferença é principalmente ao outro, porque nos extremos a obsessão da felicidade pode ser apenas mais uma doença ou uma das máscaras do narcisismo. No livro a maioria das cenas acontece num condomínio fechado, que é o sonho de consumo de muitas e muitas pessoas na atualidade. Que haja o adjetivo “fechado” ao lado da palavra “com-domínio” diz um tanto de uma mentalidade, não somente o elogio de que nos vejam como distintos e superiores, mas que nos afastem da pobreza indesejável, das pessoas que são meras pessoas. Não há como falar da estética da indiferença sem tocar na ética da diferença. Ironicamente, esse espaço fechado aos infelizes reproduz no início do século 21 algo daquela autossuficiência da casa-grande brasileira em tempos de escravidão. E com a vantagem de que é um mundo perfeito, uma utopia, prescinde da senzala, prescinde dos escravos, ou dos novos escravos, os pobres.

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