ENTREVISTA

Milton Hatoum: 'Uma literatura ideológica pode enfraquecer o romance'

O amazonense Milton Hatoum lançou recentemente o segundo volume de sua trilogia O Lugar Mais Sombrio. Confira a entrevista na íntegra concedida por telefone

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 02/02/2020 às 8:00
Foto: Renato Parada/ Divulgação
O amazonense Milton Hatoum lançou recentemente o segundo volume de sua trilogia O Lugar Mais Sombrio. Confira a entrevista na íntegra concedida por telefone - FOTO: Foto: Renato Parada/ Divulgação
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O escritor amazonense Milton Hatoum acaba de lançar o segundo volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio, em que trabalhou por 10 anos. Em entrevista por telefone, ele conversou com a repórter Valentine Herold sobe o livro Pontos de Fuga (Companhia das Letras, 312 pgs., R$ 49,90), a importância da linguagem e o atual momento político do Brasil.

Confira a entrevista na íntegra:

JORNAL DO COMMERCIO - Este é um romance de formação, em que os leitores acompanham a vida de Martim, de seus amigos e de sua busca sem fim pelo paradeiro da mãe. Novos personagens aparecem neste segundo volume e alguns antigos permanecem, agora mais velhos. Quais os desafios de fazer esses personagens amadurecerem, de intensificar certos conflitos em suas vidas e criar novas questões?

MILTON HATOUM - O primeiro volume foi mais uma apresentação dos personagens e a exposição desse drama de Martim [o protagonista] que é o desaparecimento de sua mãe. No segundo volume, eles já estão mais maduros, são universitários e depois se formam, trabalham, entram de verdade na vida adulta. Acho que tudo isso tem uma relação com minha vida em São Paulo nos 1970, quando eu estudei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Nesse livro as relações se tornam mais complexas e voltadas ao olhar de cada um para o outro. As conversas, os sentimentos, os impasses e os destinos de cada um estão aí, e são destinos muito diferentes também. Eu quis deslocar um pouco os conflitos de Martim para questões familiares de outros personagens, como Laísa e Ox, por exemplo.

O pano de fundo continua sendo o da Ditadura Militar e eu quis também acentuar um pouco esse momento histórico que fez mal, mostrar como um estado repressor e bruto agia na vida das pessoas. Como Ox e Marcela dizem em determinado momento, o Estado é tão destruidor quanto a família pode ser. Então essas situações da dificuldade dos pais em entender e aceitar os desejos dos filhos, tema também presente no meu livro Cinzas do Norte. Um pai que é tirano e não quer que o filho seja artista, porque ser artista é visto como negativo. E estamos vendo isso hoje no Brasil como discurso oficial.

JC - O primeiro livro, A Noite da Espera, foi lançado em 2017. Nesses quase três anos você esteve escrevendo Pontos de Fuga ou ele já estava pronto? De que forma você trabalha a escrita dessa primeira trilogia?

M.H. - Passei cerca de uma década trabalhando nesses três livros. O terceiro já está em fase de revisão e pretendo lançar ainda este ano, no segundo semestre. A narrativa muda e passa a ser através de uma mulher, uma amiga de Martim que conta uma história para ele, uma história de amor. Mas os personagens dos outros livros vão continuar a aparecer. Eu demorei a lançar porque sou escravo dessa lentidão amazônica (risos). Eu gosto dessa lentidão, a literatura não pode e nem deve ser feita às pressas. Tem todo o processo de construção, gerar um sistema, produzir a linguagem. Alguns leitores costumam confundir a vida dos escritores com o que é posto no livro, e não é bem por aí. Você tem que esquecer um pouco a vida do autor e focar na linguagem.

No começo da escrita, nada é muito organizado, existem as associações entre memória e imaginação. No fundo, o leitor é sujeito do livro, não existe objeto sem o sujeito. O livro se faz no momento mesmo em que está sendo escrito. E eis aí um dos grandes mistérios da literatura: o momento da escrita e a recepção do leitor. Você não conhece o leitor, o que ele pensa, que outro livro ele vai imaginar a partir da leitura. São mistérios da linguagem.

JC - Neste livro Martim sai de Brasília e volta para a São Paulo de sua infância, na esperança de reencontrar a mãe. Ele passa a morar num república de estudantes que parece uma grande metáfora sobre a república brasileira...

M.H. - Sim! Tem desde um herdeiro de fazenda de café, o Ox, que é um liberal assumido, até pessoas opostas em termos de visões políticas e também moradores de origem humilde, como Marcela e Julião, que não têm dinheiro e precisam trabalhar. Tudo isso foi pensado e também com base na minha vida, morei em várias repúblicas quando estudava em São Paulo. Martim e outros personagens também são estudantes de arquitetura. Mas minha experiência foi filtrada e inventada muitas vezes a partir da linguagem. Quando você escreve é que de fato lida com a experiência da palavra. Às vezes até se esquece quem você foi para se tornar o narrador que está sendo no momento do livro. É um processo intenso porque coisas que acontecerem há muito tempo voltam de outras formas.

JC - Qual o lugar e o papel da literatura hoje no Brasil? Acontecimentos como a extinção do Minc, mudanças na Lei Rouanet e outras diminuições de políticas públicas culturais exigem uma literatura engajada?
M.H. - Sinto muito dizer isso, mas não acredito em literatura engajada. Um dos maiores compromissos da literatura é com a linguagem e a ética. Uma literatura ideológica pode enfraquecer o romance, porque o mesmo não deve explicar nada por si só, mas sim falar das relações humanas e através delas a história acontece. O livro não pode ser maniqueísta, mas claro que há um compromisso e uma responsabilidade. No meu livro o pano de fundo é a Ditadura Militar, a questão indígena também, e as críticas estão o tempo todo presentes. Só que através da vida das personagens.

JC - Então o lado negativo de uma literatura engajada seria estigmatizar a obra àquele momento específico da História?
M.H. - Exato, de virar uma literatura puramente como denúncia e isso nunca foi algo que me interessou muito. Assim como a educação não deve ser e, nesse momento, está sendo. Nunca tivemos uma orientação tão de direita e extrema direita como estamos tendo nesse governo. Acredito que a educação deve ser humanista para os jovens, incentivá-lo a desenvolver uma visão crítica de mundo, não colocá-lo numa gaiola de direita ou esquerda. E temos no Brasil autores excelentes que seguiram esse caminho.

Aí em Pernambuco mesmo teve o Osman Lins, com uma obra experimental esteticamente, sofisticada e com uma centralidade nas questões sociais. Assim como João Cabral de Melo Neto, que eu referencio no livro. A crítica social que ele apresenta em Morte e Vida Severina e em outros poemas é fantástica. E você vê no caso dele como a linguagem foi fundamental na construção do sentido histórico. Mas olhe...talvez uma elite engajada seja necessária sim em momentos de extrema opressão como os que estamos vivendo nesse momento. Eu entendo porque tantos escritores estão investindo nesse caminho. Sobre o lugar da literatura...

Eu penso às vezes o escritor como um artesão da linguagem. O artesão sabe como a peça vai ficar a medida que ele vai trabalhando nela, cortando, moldando, dando forma, assim como o livro. Mas quando ele tem um sentindo ideológico pré-estabelecido, o autor já sabe no que vai dar desde o início. Quando as coisas estão dadas, já são resolvidas de cara, causa até um desinteresse e uma certa apatia por parte do leitor.

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