COMPORTAMENTO

Era uma vez o amor

Às vésperas do Dia dos Namorados no Brasil, vale uma reflexão sobre as origens míticas e os desdobramentos desse sentimento tão desejado, debatido e confuso nos dias atuais

Olívia Mindêlo
Olívia Mindêlo
Publicado em 08/06/2014 às 7:00
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Há muito e muito tempo, quando o mundo ainda era uma linha tomada por montanhas e nuvens feitas de fogo, vagavam por aqui três tipos de seres: os filhos do Sol, as filhas da Terra e os filhos da Lua. Os rebentos do astro iluminado tinham dois corpos masculinos unidos pelas costas. Os da Terra também, só que femininos. As demais criaturas, por sua vez, haviam nascido metade Sol, metade Terra: os filhos da Lua. Eram a fusão do masculino e do feminino em forma de ser. E assim viviam os três sexos. Eles não sabiam nada sobre o amor. Isso foi antes da criação do amor... Até que um dia, os deuses se incomodaram com a potência de vida desses povos primitivos e, assustados, decidiram castigar. O desejo de Thor era um só, aniquilar todos eles com marteladas, mas Zeus disse: “Não! É melhor eu usar meus raios como tesouras, assim como eu cortei as pernas das baleias e dividi os dinossauros em lagartos”. Então, o superpoderoso se colocou entre as nuvens, soltou uma risada e arremessou suas lanças elétricas, afiadas feito faca. Os filhos do Sol, da Terra e da Lua se separaram bruscamente. Como se não bastasse, Osíris e os deuses do Nilo sopraram uma tempestade para que, apartados pela água – corpo e alma –, eles jamais pudessem novamente se encontrar.

Essa é a história da origem do amor, em versão contada por gregos no livro O banquete, de Platão, e recontada na música The origin of love, de Stephen Trask, que nos guia até aqui. Mas, afinal, onde estaria o amor nisso tudo? O amor, diz a lenda, seria uma espécie de rebeldia instintiva, a nossa luta para encontrar a outra metade desmembrada pela força da natureza e do destino. Na letra de Trask, o amor também rimaria com dor e assim narra, ao fim da canção, um reencontro entre nós, bípedes desgarrados: “Você tinha um jeito familiar, mas eu não pude te reconhecer/ Porque você tinha sangue no seu rosto/ E eu tinha sangue nos meus olhos/ Mas poderia jurar pela sua expressão / Que aquela dor na sua alma era exatamente a mesma da minha/ Era uma dor que cortava o coração em linha reta/ Nós chamamos essa dor de amor”. E completa a cena, de fazer chorar, com os seguintes versos: “Então nos envolvemos nos braços um do outro/ Tentando juntar nossas almas de volta/ Nós estávamos fazendo amor, fazendo amor”.

Mito ou não, a verdade é que ainda há muito dessa história toda fazendo os mais primitivos de nossos sentidos pulsar. Quem nunca desejou e buscou, talvez até achando, por sorte, a outra metade, que levante a mão, pois, bem ou mal, parece ter sido assim que a humanidade aprendeu a amar. Séculos e mais séculos depois, paquera, Dia dos Namorados, expectativa, casamento, frustração, separação. Estaria Zeus ainda insistindo? Ou teríamos nós, bípedes solitários, nos tornado mancos, cegos e escravos de uma sensação de incompletude à espera de revisão? O amor é mesmo um só e só isso?

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