COMPORTAMENTO

Que você se deleite seja com quem for

O sentimento talvez permaneça semelhante, mas as possibilidades de realização do amor se transformaram e se ampliaram com as culturas que o envolvem há séculos

Olívia Mindêlo
Olívia Mindêlo
Publicado em 08/06/2014 às 7:08
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Século 21. Um homem perdido no vácuo de uma metrópole de futuro próximo decide comprar um sistema operacional para que resolva seus problemas e, quiçá, lhe faça companhia. Formata o novo programa: voz feminina. O “brinquedinho novo” se chama Samantha e está a postos 24 horas por dia. Fone no ouvido, é só começar. Theodore, o meia-idade solteiro, se entusiasma com a sagacidade do ser virtual que acaba de adquirir. Parece gente e evolui emocionalmente com o passar do uso. Não é comum em casos assim, mas os dois se apaixonam. Lá pelas tantas, inebriado de amor e apavorado pela possibilidade de uma pane fatal em seu sistema, Theodore pergunta a Samantha: “Você conversa com mais alguém?”. Ela responde: “Sim, agora com 8.315 pessoas”. E então ele arrisca mais uma: “E está apaixonada por... mais alguém?”. Ela hesita, e continua: “Sim...”. “Por mais quantas pessoas?”, gagueja Theodore. “Huum... Por exatamente 641 pessoas.” Silêncio. “Sinto magoá-lo, querido, mas sou diferente de você. Isso não me faz te amar menos; me faz te amar mais!”

A história e a cena foram tiradas do filme Ela (Her, EUA, 2013), de Spike Jonze, diretor de uma das produções mais instigantes do cinema recente para se pensar a nossa tal ideia de amor e, quem sabe, fazê-la emergir para o lado da luz. Obviamente, há muito exagero e certa comicidade na situação descrita. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman certamente diria que a habilidade de Samantha para tantos relacionamentos não passa de um sintoma do “amor líquido”, volátil, de seres conectados, mas de laços frouxos e frágeis. Já quem aprendeu a ver o outro como a única, preciosa e exclusiva peça do quebra-cabeça que faltava só pode achar isso tudo uma grande piada. Simplesmente inaceitável, mesmo que, vez por outra, não ache nada demais se relacionar com várias pessoas – na surdina, claro. 

Mas não há como negar: o drama de Jonze chega, no mínimo, para estremecer a noção de amor que nos acompanha por séculos e, de quebra, fazer a gente rir um pouco de si. Primeiro, desconstrói a ideia de fidelidade, a grande condição do amor romântico, este que conhecemos bem e geralmente associamos à tal procura pela tampa da nossa panela. Depois, surpreende pela própria maneira como faz o seu caso amoroso acontecer: uma posse ao alcance do botão, sem pele, sem sexo, basicamente só verbo. O mais interessante é que nem por isso há ausência de amor. “Você pensa que o coração é um órgão que se esvazia quanto mais se ama?”, indaga Samantha a Theodore em outro dado momento do filme. 

Recentemente, o videodocumentário brasileiro Poliamor, de José Agripino, trouxe à tela questionamentos semelhantes. A entrevistada Dona Flor e seus dois “alguma coisa”, na autodefinição da paulistana Charô, provocou o diretor quando questionada sobre como ser possível conciliar duas pessoas ao mesmo tempo. “Eu vou te responder com uma pergunta: como você se dividiu entre seu pai e sua mãe na infância? As pessoas me perguntam isso e eu digo: ‘Amei minha mãe, meu pai, minha tia e isso nunca foi conflitante.’” Charô é casada há quase três anos com Rogério e tem um “rolo”, como diz, há mais de seis. Não vê conflito nisso. Nem os seus amantes. 

O amor mudou, precisamos perceber. O sentimento talvez permaneça semelhante, poderemos chegar a essa conclusão, mas suas possibilidades de realização se transformaram com as culturas que o embalam – seja para niná-lo, sacudi-lo ou embrulhá-lo pra presente. “Como foi o amor nos últimos três milênios?”, pergunta a psicanalista Regina Navarro em O livro do amor (BestSeller, 364 págs., 2012), dividido em dois volumes cuja proposta é narrar a história do sentimento desde os primórdios. Após estudar mais de 200 obras a respeito do tema para escrevê-lo, Regina parece concluir: “Minha ampla pesquisa satisfez a curiosidade sobre o que ocorreu no nosso passado, gerando tanta infelicidade, tão pouco prazer. O amor foi normatizado, reprimido, violentado. A ordem moral reinou, exercendo profunda tirania sobre a vida privada”. E acrescenta: “(...) as relações amorosas e sexuais, excluindo a miséria e a doença, claro, são a maior fonte de sofrimento humano. Apesar da evolução nas décadas de 1960 e 1970, homens e mulheres ainda sofrem demais com seus medos, suas culpas e frustrações”.

OUTRAS POSSIBILIDADES

O amor seria mesmo, então, indissociável da dor, como cantou Stephen Trask em The origin of love? Cláudia Naomi não vê sentido nisso. “Por que estou sofrendo por gostar de alguém? Por que estou sofrendo por amar outra pessoa? Aí que eu achei errado, eu não devia sofrer por amar”, argumenta no documentário Poliamor. “Aí o que acontece? Você joga toda a sua frustração e expectativa naquela relação, você não divide nada”, acrescenta Fátima Peres, outra entrevistada do vídeo, para quem a felicidade não deve ser depositada em uma só pessoa. “Se a pessoa tá bem, não tem problema que não seja comigo neste momento”, diz. Seu namorado, Ulysses Silva, acredita que quanto mais se ama, mais amor se tem para dar. “A gente vai conseguir ter relacionamentos poliamoristas a partir do momento em que a gente estiver se aproximando de uma sociedade colaboracionista, onde as pessoas não disputem, mas se complementem.” 

Se complementar aqui não significaria completar o que falta. Um sentido novo parece vir do entendimento de que os relacionamentos são a soma de seres independentes que se amam, querem o bem entre si e, sobretudo, desejam a felicidade alheia. Não importa se são histórias de homem e mulher, duas mulheres, dois homens, dois homens e uma mulher, e tantas outras possibilidades. Elas existem, são reais. Podem durar um dia e valer a vida inteira. Podem permanecer à distância, sem encontros previstos. E podem ainda acabar em casamento e ir até o fim da vida. Mas o amor não precisa de caixinhas, é tudo o que menos precisa, para lembrar texto recente da colunista Flávia de Gusmão, deste JC.

Dalai-Lama nos ensina que, segundo o budismo, devemos cultivar pelo outro “um amor igual àquele da mãe pelo filho único”. Não no sentido edipiano, de Freud. Mas da intensidade e da vontade de ver o outro se desenvolver, segundo suas próprias necessidades, não as nossas. E tem mais: para os budistas, este amor seria desapegado, tendo como fim último a liberação. “O amor não é de prender, é de fazer voar”, escutei certa vez de um grande amor. Mas então por que temos tanto medo de libertar o amado de nós mesmos? Onde está o nó? 

A cantora pernambucana Karina Buhr já cantou: “Tá tudo padronizado no nosso coração” (da sua música Mira ira). E John Lennon já falou (diz a web): “Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. (...) Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas (...). Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém”.

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