Cena Política

Lula e Bolsonaro contribuíram para o aumento da fome e da miséria no Brasil. Na eleição, cada um terá sua desculpa

Todos os políticos, este ano, vão dizer que entendem a fome e a miséria. Não entendem. Se entendessem, nem discutiriam.

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Igor Maciel

Publicado em 08/06/2022 às 12:48 | Atualizado em 08/06/2022 às 12:51
Análise
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A fome será tema das eleições neste ano. É algo que não era visto como um grande problema há quase três décadas no Brasil. Levantamento divulgado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) mostra que seis em cada dez famílias brasileiras sofrem com problemas de insegurança alimentar. Significa que passam fome ou não têm certeza se comerão nos próximos dias.

Situações assim abrem espaço para uma exploração eleitoral.

Bolsonaro (PL) vai dizer que a fome é culpa da guerra na Ucrânia e da pandemia.

Lula (PT) vai dizer que a fome é culpa de Bolsonaro.

Por isso, é importante vacinar os ouvidos com alguns fatos.

Dilma

Fome e miséria são o ponto mais baixo de uma crise que iniciou com Dilma Rousseff (PT) na presidência. A culpa é dela? Sim e não.

Nossa presidente transformou a rispidez em prática de gestão. Após ser eleita, com votos que eram de Lula, acreditou que poderia tratar todo e qualquer agente político como subalterno. Dinamitou pontes entre os Poderes importantes para o país. Depois, tomou uma decisão errada atrás da outra, forçou a economia a apoiar a sua própria reeleição, congelando preços de gasolina e energia elétrica que depois explodiram nos bolsos do contribuinte. Então, ela tem culpa sim.

Mas, não está sozinha. Em reação às atitudes da presidente, o Congresso começou a inviabilizar o governo. Quando se tentava corrigir os rumos equivocados, deputados e senadores magoados com a então chefe do Executivo trataram de revidar. Políticos que trabalham por emoção, sacrificam o povo e também são responsáveis. Conseguiu-se o impeachment e, em seguida, Michel Temer (MDB) que comandava a reação política à Dilma tratou de tentar consertar as coisas.

Sergio Moro

No meio de todo esse processo, figuras como Sergio Moro (UB) e Deltan Dallagnol (Podemos) seguiam tentando se notabilizar pela "criminalização da política" disfarçada como combate à corrupção. Percebem que ambos estão, agora, alinhados a partidos políticos? Pois é.

O ex-juiz virou ministro da Justiça em seguida e, hoje, ele e o colega promotor são pré-candidatos.

Temer

Nesse clima de “nenhum político presta”, o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, armou um encontro entre o presidente e um empresário envolvido com crimes. O “escândalo” acabou com as chances de Temer continuar na presidência numa reeleição.

Lula

Na eleição de 2018, para evitar que outro candidato se viabilizasse enquanto Lula estava preso, o PT insistiu em uma maluquice: queria que o ex-presidente fosse candidato de dentro da cadeia. Todo mundo sabia que isso não seria possível. Quando foi proposto que o PT apoiasse alguém com chances de vitória, isso era tratado como uma ofensa.

O objetivo, na verdade, era apenas inviabilizar qualquer nome com chances e garantir a vitória de alguém “sem condições de fazer um bom governo”. Lula e o PT foram mesquinhos para garantir a própria sobrevivência e uma redenção.

O Brasil está pior, por isso também.

Bolsonaro

Bolsonaro, inapto para o cargo, sempre foi a melhor oportunidade para o PT voltar ao poder. E assim aconteceu. O atual presidente é uma mistura de inutilidade encarnada, com explosão de fogos de artifício e a malandragem de um emergente social, alguém que não se encaixa onde está e tenta sobreviver.

Mesmo que não houvesse guerra, mesmo que não houvesse pandemia, mesmo que todos os jardins estivessem floridos, o resultado seria ruim. O Brasil já não ia bem antes de todas essas crises. Bolsonaro resolveu insistir por todo o mandato na coisa que mais deu certo em sua vida: a eleição. Ele nunca desceu do palanque e esqueceu de governar.

Se 60% da população brasileira vive sob insegurança alimentar neste momento, é preciso que tudo isso fique bem claro, porque não existe um culpado único. O Brasil dessas últimas décadas é uma fábrica de crises provocadas por orgulho, mágoas, inaptidão, incompetência, interesses pessoais e hipocrisia disfarçada de justiça.

E nisso, Lula e Bolsonaro são responsáveis. Toda a classe política brasileira e parte da Justiça contribuíram também. Boa parte da sociedade civil contribuiu.

Congresso ajudou

Neste exato momento, ao invés de se discutir a fome, deputados e senadores estão debruçados sobre as próprias reeleições, discutindo temas, esta semana, como uma campanha para doação de cabelos (PL 610-A/2021) ou o “Dia Nacional do terço dos homens” (PL 2.676/2021). São importantes para seus públicos e é válido, mas é urgente?

Fora isso, a presidência da Câmara corre para aprovar projetos que modificam a Constituição em “dez ou doze sessões”, rápido, antes das eleições, sem muita discussão. Porque o importante é liberar todo mundo pra ir buscar votos.

Recife com miséria

No momento em que este texto está sendo escrito, manifestantes ocupam as ruas do Recife em um protesto por causa da inação do governo do Estado e das prefeituras após a tragédia das chuvas. São famílias que, se não faziam, agora fazem parte desse grupo de insegurança alimentar.

Basta andar pelas ruas do Recife para encontrar centenas de desabrigados pelas calçadas e não é de agora. Vem aumentando. A miséria é algo que se expande em Pernambuco.

O que foi feito em todos esses últimos anos?

Sempre que se pergunta isso aos governantes locais, a reação imediata é dizer que a culpa é do governo Federal.

Não entendem

Todos os políticos, este ano, vão dizer que entendem a fome e a miséria.

Não entendem. Mesmo quem diz que já passou necessidade um dia, mas hoje faz todas as refeições.

Se entendessem, nem discutiriam, e saberiam que quem passa fome não está interessado em saber de quem é a culpa.

Quer, apenas, comer.

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