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Medo da covid-19 ronda professores das escolas privadas de Pernambuco: "sentimento de desespero"

Aulas presenciais nas escolas privadas recomeçaram em 5 de abril. Professores temem o coronavírus, mas não denunciam abertamente com receio de demissões

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 22/04/2021 às 15:15
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YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
Aulas presenciais nas escolas da rede privada voltaram em 5 de abril, por etapas - FOTO: YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Professores de escolas particulares de Pernambuco estão temerosos, assim como os da rede estadual, com os casos de covid-19 entre colegas, alunos e funcionários. Por trabalharem em unidades privadas, não falam abertamente sobre o problema nem fazem greve com medo de demissões.

Quarenta colégios particulares foram denunciados ao sindicato docente, entre março e a primeira quinzena de abril deste ano, por estarem descumprindo algum item do protocolo sanitário estipulado pelo governo estadual.

Mas nem o sindicato dos donos de escola nem a Secretaria Estadual de Educação informam o número de casos da doença nos membros da comunidade escolar. E a Vigilância Sanitária do Recife, responsável por fiscalizar as unidades privadas, não repassou para o JC quantas escolas foram inspecionadas este ano.

Em Aldeia, no município de Camaragibe, no Grande Recife, uma escola foi temporariamente fechada este mês pela direção porque quatro funcionários testaram positivo, além de duas crianças. No Recife, um professor de química do ensino médio de três colégios de classe média está internado numa UTI com covid-19.

Em outra escola que tem duas unidades na cidade a informação é de que três docentes (dois de história e um de matemática) também foram infectados. Recentemente, a diretora de uma escola da Zona Sul precisou ficar internada para tratamento do novo coronavírus.

Uma das queixas dos professores é que as famílias estão pressionando as escolas para que não haja rodízio de alunos. A ida intercalada dos estudantes para aulas presenciais é a saída adotada por alguns colégios quando não há espaço suficiente para acomodar todos os estudantes numa sala respeitando o distanciamento mínimo de 1,5 metro, estipulado no protocolo da educação.

Devido ao agravamento da pandemia de covid-19, as aulas presenciais para educação básica e ensino superior, público e privado, foram suspensas em Pernambuco em 18 de março. No dia 5 de abril, o governo liberou a volta das atividades para educação infantil e as cinco séries iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) nos colégios particulares.

No dia 12 de abril voltaram, dessas mesmas escolas, os estudantes das séries finais do fundamental (6º ao 9º ano) e todo o ensino médio. A rede privada de ensino, no Estado, tem cerca de 400 mil alunos, 2.400 escolas e 18 mil docentes, segundo o Sindicato as Escolas Particulares de Pernambuco (Sinepe).

RELATOS

"Na escola em que trabalho existe um rodízio semanal de estudantes. Entretanto esse rodízio é desobedecido constantemente. As turmas estão cada vez mais cheias e sem controle. Tive sintomas da covid-19, avisei à coordenação que estava com a possibilidade de estar doente, mandei foto do meu exame PCR marcado. Entretanto a escola alegou que caso eu não tivesse um atestado médico eu deveria dar aula mesmo assim. No outro dia recebi o exame confirmando que estava infectado", relata um professor de ensino médio de uma grande escola do Recife. Ele só topou conversar sob anonimato.

"Vejo diariamente estudantes abraçados, trocando materiais, não utilizando máscaras. O sentimento em mim e em outros professores é de desespero. Temos que trabalhar em um ambiente que, por não seguir as regras, coloca nossas vidas em risco. O modelo híbrido é ineficaz, o protocolo não é seguido, e vemos professores e coordenadores, que agora atuam em tarefas que não os pertencem, mantendo-se calados com o medo de perder seus empregos", complementa.

"Com o retorno das aulas, após a quarentena mais rígida, a escola que leciono abandonou um dos protocolos mais eficientes para diminuir a transmissão do coronavírus: o rodízio entre os alunos. Agora são as famílias que decidem se mandam ou não o aluno para a escola, que, caso receba muitos ou poucos estudantes, faz uso dos mesmos espaços físicos para receber os grupos de estudantes", conta outro docente, de um colégio tradicional da Zona Norte de Recife, também sem se identificar para não ser punido.

"Na sala de aula, até vemos certo distanciamento entre bancas, mas nos intervalos, as áreas comuns ficam lotadas de jovens lanchando, batendo papo e sem nenhum tipo de respeito às regras sanitárias", complementa.

PROTOCOLO

"Grande parte das queixas é de funcionários, alunos e professores com covid-19 na escola. Recebemos denúncias referentes a 40 escolas, mas achamos que tem muito mais. Poucas cumprem todos os protocolos. Como sindicato, só podemos visitar as escolas comunicando antes ao sindicato patronal e nos horários de recreio. Nossa circulação na maioria das vezes fica limitada pelas direções às salas dos professores, o que nos impede de confirmar o que foi denunciado", ressalta o presidente do Sindicato dos Professores de Pernambuco (Sinpro), Helmilton Beserra

O presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco (Sinepe), José Ricardo Diniz, informa que a entidade não tem levantamento dos casos de covid-19 nos colégios privados. "O que tem nos sido relatado é que tem havido muita cautela em, ao primeiro sinal de suspeita da doença, antes de qualquer teste, é solicitar que o professor ou colaborador fique em casa, no remoto, e sigam todo o protocolo para teste e diagnóstico", explica José Ricardo, em relação aos relatos de adoecimento de professores e funcionários. "Quanto aos alunos, o procedimento também segue os mesmos cuidados, até mesmo porque os pais já não levam seus filhos à escola, ao menor sintona ou suspeita", complementa.

José Ricardo garante que os colégios estão atentos em seguir as regras definidas pelo governo de Pernambuco para funcionamento das unidades de ensino. "O cumprimento do protocolo estabelecido para as escolas é condição básica para restringir os riscos de contágio provocado pelo coronavírus", observa.

FISCALIZAÇÃO

Qualquer caso de covid-19 em pessoas da comunidade escolar, seja unidade pública ou privada, deve ser comunicado à Secretaria Estadual de Educação. Mas o órgão não informa quantas pessoas ficaram doentes em Pernambuco nesses espaços.

Explica que existe um comitê com integrantes da própria secretaria e representantes dos sindicatos docentes - Sintepe, no caso da rede estadual, e Sinpro, no caso das escolas particulares. A partir de denúncias são realizadas vistorias para averiguar o cumprimento do protocolo. Entre 25 de fevereiro e 17 de março foram visitadas 43 escolas no Estado. O órgão não detalhou em quantas foi confirmada irregularidade e quais eram.

O Procon-PE também deve fiscalizar as unidades de ensino. Este ano, explica o órgão, somente cinco escolas privadas foram fiscalizadas, a partir de denúncias. "Todas estavam regulares. As denúncias eram de salas de aulas cheias", comunica a assessoria do Procon-PE.

À Vigilância Sanitária do Recife também cabe conferir se as escolas particulares estão seguindo as normas sanitárias para permanecerem abertas. O JC perguntou quantas unidades foram visitadas, mas não obteve retorno. O órgão limitou-se a informar que tem um cronograma de visitas, desde setembro do ano passado, mediante denúncias.

"Durante a visita, os inspetores conferem, por exemplo, se há dispositivos para higienização das mãos, como pias com água e sabão ou álcool em gel, medidas para garantia do distanciamento dos estudantes em sala de aula e outros ambientes, se a escola está intensificando a higienização nos banheiros, áreas e superfícies comuns, uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como máscaras, pelos funcionários, dentre outras medidas previstas no protocolo", diz a Vigilância Sanitária.

DENÚNCIAS

Qualquer pessoa pode denunciar escolas, caso perceba que a unidade não está seguindo o protocolo santário. Na Secretaria Estadual de Educação, o controle social pode ser feito pelo canal “Fale Com a Ouvidoria da SEE”, através do site www.educacao.pe.gov.br e telefone: 0800.286.8668.

"Dessa forma, pais e/ou responsáveis, estudantes, trabalhadores da educação e colaboradores podem protocolar manifestação a respeito do descumprimento das medidas contidas no protocolo, contribuindo para manutenção de um ambiente escolar livre do novo coronavírus", destaca a secretaria.

Os canais do Procon-PE para denúncias são o call center (0800-282-1512), o whatsapp 3181-7000 e o Instagram do órgão @proconpe.

REDE PÚBLICA

Nas escolas estaduais, o retorno das aulas presenciais começou na última segunda-feira (19), com educação infantil, anos iniciais do fundamental e 3º ano do ensino médio. Na próxima semana voltarão, dia 26, os 8º e 9º anos do fundamental e o 2º anos do ensino médio. Por fim, em 3 de maio, retornarão os 6º e 7º anos do fundamental e o 1º ano do ensino médio.

Os professores iniciaram uma greve porque são contrários às aulas presenciais justamente por temerem o contágio da covid-19 no ambiente escolar. A paralisação começou segunda. A Justiça decretou a ilegalidade do movimento e estipulou multa diária de R$ 200 mil para o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) em caso de descumprimento.

Nas redes municipais, o governo de Pernambuco autorizou a reabertura das escolas a partir do dia 26. Mas deixou a cargo de cada prefeitura a definição das datas de volta dos alunos. 

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