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'O Brasil precisa, mais do que nunca, de massa crítica', diz Mozart Neves após ministro da Educação defender universidade 'para poucos'

O professor pernambucano e ex-reitor da UFPE destacou, em entrevista à Rádio Jornal, que o País precisa investir em políticas públicas para dar condições aos jovens de eles decidirem, conforme seus projetos de vida, se querem ingressar no ensino técnico ou no ensino superior

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 11/08/2021 às 20:46
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BERG ALVES / JC IMAGEM
Professor pernambucano e ex-reitor da UFPE Mozart Neves Ramos - FOTO: BERG ALVES / JC IMAGEM
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O Brasil precisa investir em políticas públicas para dar condições aos jovens de eles decidirem, conforme seus projetos de vida, se querem ingressar no ensino técnico ou no ensino superior. Essa é a opinião do professor pernambucano e ex-reitor da UFPE Mozart Neves Ramos ao comentar a fala do ministro da Educação, Milton Ribeiro, que na última segunda-feira (09) afirmou, em entrevista à TV Brasil que a "universidade deveria, na verdade, ser para poucos".

Membro do Conselho Nacional de Educação e titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), Mozart criticou o posicionamento do ministro.

"Ele não foi feliz na sua fala, principalmente sendo o ministro da Educação. O Brasil precisa, mais do que nunca, de massa crítica, de recursos humanos qualificados, não só de nível superior, mas pós-graduandos, mestrandos, doutorados", defendeu Mozart, na tarde desta quarta-feira (11), em entrevista à jornalista Anne Barreto, no programa Rádio Livre, da Rádio Jornal.

"O Brasil, enquanto política de Estado, precisa prover oportunidades para todos os jovens, em consonância com o projeto de vida desses jovens. Num é o ministro da Educação que vai dizer ao jovem que ele não vai ter condições de ingressar no ensino superior", comentou Mozart, que também foi secretário de Educação de Pernambuco entre 2003 e 2007.

Mozart reforçou a necessidade de investimentos para aumentar o número de jovens no nível superior. "Para se ter ideia, o Brasil hoje tem apenas 21% de matrículas no ensino superior de jovens de 18 a 24 anos, que é a faixa etária para cursar o ensino superior. Os nossos vizinhos, Chile, Argentina, Uruguai, por exemplo, têm na ordem de 35%. Países da comunidade européia, a maioria deles tem acima de 50%", contou.

"O Brasil precisa fazer um esforço muito grande inclusive para chegar no que está previsto no Plano Nacional de Educação, que coloca como meta para 2024 alcançar 33% dos jovens de 18 a 24 anos no ensino superior. E por que é importante fazer ensino superior? Porque é absolutamente estratégico para redução das desigualdades sociais em nosso País",  enfatizou Mozart.

"Um jovem que conclui o ensino superior cujos pais não tem esse nível ganha em média R$ 2.400 em início de carreira, segundo a PNAD do IBGE. Se esse mesmo jovem conclui a faculdade e seus pais também têm nivel superior o salário de partida é na ordem de R$ 6.300, ou seja, quase três vezes maior. Então se queremos reduzir desigualdade é importante que se tenha ensino superior", defendeu Mozart.

NÍVEL TÉCNICO

"A universidade, na verdade, deveria ser para poucos nesse sentido de ser útil à sociedade. Tenho muito engenheiro ou advogado dirigindo Uber porque não consegue colocação devida. Se fosse um técnico de informática, conseguiria emprego, porque tem uma demanda muito grande", disse ainda o ministro Milton Ribeiro, em entrevista ao programa "Sem Censura".

"É obvio que o País também precisa de jovens que vão fazer o ensino técnico, o ensino profissionalizante, é muito importante. Mas num é dizer a escolha de Sofia, isso é para poucos ou isso é pra muitos ou todos, não é assim", comentou Mozart, que concorda com a necessidade de igualmente estimular o ensino técnico.

"O Brasil tem 1,9 milhão de jovens cursando ensino técnico profissionalizante. A meta, também de acordo com o PNE, é até 2024 chegar a 5,2 milhões de jovens nessa etapa. Estamos muito distante", lamentou.

"O País está precisando, mais do que nunca, de jovens bem informados. Hoje, no mundo que estamos vivendo, disruptivo, é importante colocar a ideia de estudar, de aprender durante toda a vida. O diploma é apenas ponto de partida. É fundamental que nossos jovens possam sonhar com o seu desenvolvimento pessoal e profissional ao longo da vida", ressaltou Mozart.

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