COLUNA ENEM E EDUCAÇÃO

Educação pós-pandemia: cenário é de aumento de desigualdades e retrocesso em indicadores do ensino

Com a redução gradual dos números da pandemia e a retomada das aulas presenciais na maioria das redes de ensino, ainda que em tempos e formatos diferentes, o olhar se volta para os prejuízos que o afastamento da escola provocou nos alunos e docentes

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 26/10/2021 às 6:00
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Moradora da zona rural, Izabelly não conseguiu acompanhar todas as aulas porque não tinha equipamento nem internet - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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De repente, escolas e universidades públicas e privadas do Brasil, a exemplo do que acontecia mundo afora, tiveram que fechar diante dos riscos de contaminação pelo novo coronavírus. Era março de 2020. Somente na educação básica, a interrupção da rotina escolar atingiu no País quase 48 milhões de estudantes e 2,2 milhões de professores em um universo de 179 mil colégios, sendo mais de 80% da rede pública. Um ano e sete meses depois, com a redução gradual dos indicadores da pandemia e a retomada das aulas presenciais na maioria das redes de ensino, ainda que em tempos e formatos diferentes, o olhar se volta para os prejuízos que o afastamento da escola provocou nos alunos e docentes. E quais medidas precisam ser adotadas para minimizá-los. O cenário não é otimista. Aponta para o aumento das desigualdades e retrocesso em indicadores educacionais que vinham melhorando antes da covid-19.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil foi o país onde as escolas permaneceram fechadas por mais tempo, em 2020, entre 35 nações analisados: 178 dias, enquanto a média da OCDE foi de 48 dias (considerando educação infantil e ensino fundamental).

Em Pernambuco, as aulas presenciais voltaram em datas diferentes, conforme a rede e as etapas da educação básica. A suspensão para todas as redes começou em 18 de março de 2020. O Estado tem cerca de 2,6 milhões de estudantes (2,1 milhões na rede pública e 500 mil na privada). Obedecendo protocolo sanitário que limitou, por exemplo, a quantidade de discentes por sala, as unidades particulares e as estaduais reabriram, desde outubro de 2020, ou seja, há um ano, para o ensino médio. No mês seguinte voltaram os alunos das escolas privadas da educação infantil e do ensino fundamental.

Para os estudantes dessas duas fases, na rede pública (estadual e municipal) - um universo de 1,7 milhão de alunos - a liberação do governo estadual para reabertura dos colégios aconteceu com diferença de cinco meses - somente em abril deste ano. E mesmo assim menos de 10 das 184 cidades pernambucanas voltaram a receber presencialmente seus alunos naquele mês.

A maioria, como o Recife e todos os outros 13 municípios da Região Metropolitana, optou por oferecer o ensino presencial só neste segundo semestre e com rodízios de turmas. Em Jaboatão dos Guararapes, por exemplo, uma das cidades que mais arrecada impostos depois da capital, dois terços dos 66 mil estudantes da rede municipal ainda estão com aulas remotas. Só voltarão para o presencial na próxima quarta-feira (03), faltando menos de dois meses para acabar o ano letivo. No Estado, 25% das cidades ainda não retomaram as aulas presenciais (46 municípios).

SEM CONEXÃO

Izabelly Kamilly Nascimento, 11 anos, aluna do 6º ano do ensino fundamental, sentiu bastante a ausência das aulas presencias. Ela vive na zona rural da cidade de Joaquim Nabuco, na Zona da Mata pernambucana. Mora ao lado da escola em que estudava ano passado e que ficou fechada por 13 meses - de março de 2020 até abril deste ano. Mal conseguiu acompanhar as aulas remotas porque não tinha celular, tampouco computador. E nem sinal de internet.

"Foi muito ruim. Ficava triste porque não conseguia fazer todas as tarefas que a professora mandava. Às vezes eu ia na casa de uma colega, mas eu tive muito medo do coronavírus", conta Izabelly, que mudou de escola este ano por ter passado para as séries finais do fundamental. "Não tenho renda, sobrevivo da ajuda de um filho. Trabalhei 24 anos numa usina de cana de açúcar, mas não consegui aposentadoria. Não sei ler nem escrever. Izabelly ficou muito chateada pois não podia ver as aulas", afirma a avó da menina, Edileuza Silva, 59, com quem ela mora. As aulas presenciais para Izabelly voltaram no final de abril. A internet, bancada por um parente, e o aparelho de telefone chegaram quatro meses atrás.

DESIGUALDADES

"A educação brasileira está hoje numa situação muito crítica e preocupante. Ela já tinha seus desafios antes da pandemia, especialmente de qualidade e de equidade. Ou seja, as desigualdades eram imensas. E o longo período de fechamento de escolas que a gente teve no Brasil aprofunda isso. É urgente e emergencial que toda a sociedade e o poder público brasileiro estejam muito focados em resolver esses problemas acentuados pela pandemia na educação básica", destaca o economista e gerente de Políticas Educacionais do Movimento Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa.

Ele enumera três principais problemas. "Em todos eles a questão da desigualdade aparece muito forte. O primeiro é a evasão escolar. Os riscos imensos de muitos alunos que saíram, que não tiveram contato com a escola na pandemia não retornem para o sistema educacional e acabem abandonando seus estudos. O segundo é a saúde mental dos estudantes e dos profissionais de educação. O longo tempo de fechamento de escolas, o distanciamento social e esse período de tristeza e de luto pelo qual o País passou afetaram imensamente a saúde mental. Vamos precisar resolver isso nos próximos meses e anos", observa o gerente do Todos pela Educação.

"E por fim a aprendizagem. O ensino remoto foi importante mas não chega aos pés do ensino presencial. Então aqueles alunos, especialmente os mais pobres, que tiveram menos acesso ao ensino remoto, aos materiais, às tecnologias, sofreram muito com a questão da aprendizagem. Se já havia problemas graves de aprendizagem antes da pandemia, eles foram aprofundados e o Brasil está cada vez mais longe de universalizar, ou seja, de garantir para todos a qualidade educacional", afirma Gabriel.

SOBREVIVÊNCIA

São exemplos como o do adolescente Ivson Almeida, 14 anos, que vão exigir atenção redobrada. Ele está no 5º ano da Escola Municipal Novo Pina, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife. Embora esteja na última série da primeira etapa do ensino fundamental, não lê nem escreve com fluência. Como Izabelly, pouco acompanhou as aulas remotas. Não tinha celular e ainda precisava ajudar no sustento de casa.

 

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
TRABALHO Ivson catou sururu, lavou carro e fez outras tarefas para ajudar no sustento da família - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

"Eu catei sururu na maré, lavei carro, fiz muitas coisas para poder ajudar minha mãe e minhas irmãs. Algumas pessoas deram feira, um trocado. Eu queria muito que esse coronavírus acabasse logo para eu poder voltar para a escola", diz Ivson, que só em agosto retornou para o ensino presencial. Ele mora no Bode, comunidade bastante carente do Pina.

"Nem em pensamento eu tinha condições de comprar um celular. Ganho R$ 215 do Bolsa Família para sustentar três filhos. Notei um atraso em Ivson para ler e até para falar. Foi muito ruim o tempo que a escola ficou fechada, prejudicou demais. Fiquei feliz porque as aulas voltaram", comemora a mãe dele, Michele Alcântara.

COOPERAÇÃO

"A educação é feita por múltiplos atores. E por isso, em todos os níveis, desde a escola até a gestão pública, é preciso muita cooperação. Então é a hora das escolas, professores, municípios e Estados cooperarem entre si e quem sabe uma mudança de postura do governo federal que não vem facilitando e incentivando a cooperação", observa Gabriel. "Sem o Ministério da Educação que apoie Estados e municípios, as respostas da pandemia na educação têm sido muito diferentes no nosso País, o que sem dúvida nenhuma vai contribuir para acentuar as desigualdades educacionais do Brasil", avalia.

Apesar do cenário adverso, o representante do Todos pela Educação é otimista em relação ao futuro educacional do Brasil. "Os próximos meses e anos serão muito desafiadores para a educação pois tem muitos problemas para resolver. Se o comprometimento político realmente for dado, se nós enquanto sociedade, enquanto poder público, arregaçarmos as mangas e triplicarmos nossos esforços em prol dos estudantes, dos profissionais de educação, é possível superá-los. Vai dar trabalho, é desafiador, mas esses estudantes que estão na escola merecem e têm direito a uma educação de qualidade", enfatiza Gabriel.


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