COLUNA ENEM E EDUCAÇÃO

Com foco em empreendedorismo, professor pernambucano estimula jovens a desenvolverem projetos para melhorar o mundo

Professor Eraldo Guerra implantou na Escola Técnica Estadual Agamenon Magalhães (Etepam) um projeto que rendeu um prêmio mundial como escola inovadora

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Margarida Azevedo

Publicado em 19/06/2022 às 7:00
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Antes de chegar à sala de aula, o professor pernambucano Eraldo Guerra, 43 anos, vendeu roupas em feira de sulanca. Aos 13 anos, criou uma marca e produziu camisas. Filmou eventos. Tentou ser biólogo, mas a necessidade de contribuir no sustento da família o fez escolher um curso técnico para ingressar mais rápido no mercado de trabalho. Focou em tecnologia. Em todas as áreas que atuou, o empreendendorismo sempre esteve presente.

É essa abordagem, aliada à preocupação em criar produtos que ajudem a resolver problemas sociais e ambientais, que Eraldo leva para seus alunos. E que rendeu à Escola Técnica Estadual Professor Agamenon Magalhães (Etepam), a partir de um programa criado por ele, o Life Up, a estar numa premiação internacional que reconheceu 10 escolas do mundo com melhores práticas em inovação.

PRÊMIO

A Etepam fica no bairro da Encruzilhada, Zona Norte do Recife. Ganhou destaque, semana passada, ao ser finalista do Prêmio Melhores Escolas do Mundo. Organizada pela instituição britânica T4 Education, em parceria com Fundação Lemann, Fundação Templeton World Charity, Accenture, American Express e Yayasan Hasana, a premiação escolheu 50 escolas em cinco categorias: inovação, colaboração comunitária, ação ambiental, superação da adversidade e apoio a vidas saudáveis.

Outros dois colégios brasileiros integram o grupo de finalistas: uma escola da rede municipal de Cabrobó, no Sertão de Pernambuco (em superação da adversidade), e outra, também municipal, da cidade gaúcha de Novo Hamburgo (em colaboração comunitária).

"Quando pensei no Life Up queria promover para os alunos uma experiência rica em conhecimento e oportunidades. Crio uma nova forma de ensinar empreendedorismo e interdisciplinar com outros professores e disciplinas", diz o professor.

"Provoco meus alunos a entregarem algo real para a sociedade. É o protagonismo mesmo. Estimulo a pensarem em projetos que façam a diferença na vida das pessoas", explica o educador, que desenvolveu o programa na Etepam entre 2010 e 2015. Atualmente ele ensina na Escola Técnica Estadual Cícero Dias, localizada em Boa Viagem, Zona Sul da capital, onde também implementou o programa.

CARREIRA

Filho único de uma professora, Eraldo não imaginava que hoje teria a mesma ocupação que sua mãe. Sem condições de pagar uma pessoa para ficar com o filho, ela o levava, quando criança, para ficar na escola pública enquanto ministrava aulas de português para turmas de Educação de Jovens e Adultos. "Eu tinha raiva da profissão de educador. Não entendia porque eu tinha que passar tardes ali quando queria mesmo era estar brincando. Odiava", relembra Eraldo.

Já adulto, ele ingressou como professor no Programa ProJovem, voltado para escolarização e qualificação profissional de jovens e adultos carentes que não concluíram os estudos na idade certa. "Lembrei de dois alunos de minha mãe que conseguiram emprego depois que aprenderam a ler e escrever com ela. Com um deles ela ficava fora do horário da aula para ensinar", afirma Eraldo.

"Comecei a entender como educação pode transformar vidas, como o que minha mãe fez pelos seus alunos, como professora, melhorou a história deles. Percebi isso quando estava no ProJovem pois os alunos me pediam orientação para melhorar de vida. Ali, decidi que queria me tornar cada vez mais um educador. Aquele ódio e raiva se tornaram uma paixão avassaladora pelo magistério", assegura Eraldo.

Mas no currículo formal o curso voltado para educação só entrou numa das especializações que fez. Sua graduação é em rede de computadores. Tem mestrado em engenharia de software e agora encara um doutorado também na área de informática. "Quando fiz o curso técnico em desenvolvimento de software não tinha computador. Aprendi a programar num caderno. Nem por isso desisti ou deixei de ser um bom profissional", destaca Eraldo.

PROJETOS

Na Etepam foram vários projetos que Eraldo conduziu com seus alunos e renderam prêmios: fabricação de tijolos ecológicos fibra de coco; uma biomanta feita de amido de macaxeira para diminuir as inundações; um aplicativo de mobilidade para cadeirantes terem rotas seguras de circulação no Bairro do Recife; e um software para ajudar no aprendizado de alunos autistas. Com o projeto do tijolo ele ganhou o Prêmio Educadores Inovadores do Brasil, concedido pela Microsoft.

Na Escola Cícero Dias, onde ele leciona desde 2020, a pegada de unir empreendedorismo e ativismo social continua. "Para cada problema que queremos resolver, estabelecemos parcerias. É importante para que o projeto tenha um respaldo mais técnico e profissional e os alunos possam aprender com isso", esclarece Eraldo.

"Além do conhecimento, os alunos entendem na prática o motivo dele estar aprendendo aquele assunto, tornando a aula mais interessante", observa o professor, destacando ainda que isso contribui para diminuir a evasão.

EMPREENDENDORISMO

Um dos projetos do Life Up que está em curso na Cícero Dias é o Curvas. Trata-se de um software de análise de dados que vai ajudar a escola a entender melhor as avaliações externas como o Saeb e Saepe. A ideia é identificar as dificuldades dos alunos em cada área antes deles fazerem as provas. Também ajudar nas escolas em relação a esse planejamento.

"Professor Eraldo nos impulsiona a resolver problemas com o empreedendorismo. Ele é extremamente engajador e nos estimula a sermos protagonistas, a buscarmos respostas para questões dos cotidiano. Com palavras e ensinamentos, é um professor muito significativo na vida dos alunos", afirma a estudante Joara Paula, 25 anos, aluna do curso de análise e desenvolvimento de sistemas e uma das que criou o Curvas.

Outro projeto é o Fubu, implementado em 2020, no auge da pandemia de covid-19. É uma plataforma de crowdfunding que por meio de doações de criptomoedas ajuda 1.100 estudantes de Pernambuco a bancarem despesas como passagens de ônibus, alimentação e internet.

"Eraldo carrega empreendendorismo praticamente como sobrenome. O Life Up me mostrou novas visões. O projeto dá muitas oportunidades com o mesmo intuito: ajudar pessoas com soluções diferentes e eficazes que o mercado ainda não tenha pensado", destaca outra aluna dele, Mylena Gomes, 18.

"O Fubu foi criado em meio à pandemia por causa da grande evasão nas aulas remotas. A ajuda financeira faz com que o estudante acompanhe suas aulas e assim consiga alçançar seus sonhos. E possa construir um futuro melhor para ele e para os outros", afirma Mylena. É o que Eraldo busca fazer sempre que está em sala de aula.

 

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