A carona no avião do dono da Qualicorp não cabe na nova biografia que Lula deseja projetar para o mundo
Geraldo Alckmin acrescentou que governadores e outros políticos também viajam no mesmo avião, que partiu de São Paulo na manhã desta segunda-feira
No processo em que respondeu sobre a posse, ou propriedade, do apartamento do Guarujá, o ex-presidente Lula cunhou uma frase que ficou na história quando várias pessoas lhe perguntaram por que ele não assumia a propriedade do imóvel.
Lula respondeu com uma frase cortante: "Esse apartamento não cabe na minha biografia". Ninguém mais voltou ao assunto.
O presidente eleito aceitou, nesta segunda-feira (14), uma carona no avião do empresário José Seripieri Júnior, que o leva para o Egito para participar da COP 27.
Perguntado sobre a existência de conflito de interesses, o vice-presidente Geraldo Alckmin disse que a informação que tinha era de que o proprietário está indo junto. "Não tem empréstimo", respondeu.
Isso explica que o presidente eleito está pegando uma carona com mais 10 pessoas para fazer uma viagem internacional.
Geraldo Alckmin acrescentou que governadores e outros políticos também viajam no mesmo avião, que partiu de São Paulo na manhã desta segunda-feira.
Só fez complicar. Seripieri foi preso no âmbito da Operação Lava Jato em julho de 2020 e solto dias depois na investigação sobre caixa 2 na campanha do tucano José Serra ao Senado, em 2014.
É um gesto ruim. Ou, como poderíamos reutilizar a frase de Lula sobre o apartamento no litoral de São Paulo: essa carona não deveria caber na biografia de Lula.
O Partido do Trabalhadores tem verba para contratá-lo. E, se fosse o caso de fazê-lo, o valor médio do fretamento de um Gulfstream 600, seria de US$ 10 mil por hora.
Poderia até mesmo checar se na condição de presidente eleito daria para requisitar um avião da FAB para o transporte.
Mas o presidente eleito preferiu levar um grupo de assessores numa carona em avião capaz de transportar 19 passageiros e que tem autonomia de voo para fazer, sem escalas, a rota São Paulo/Egito. Um modelo zero quilômetro custa US$ 54 milhões.
QUEM É JOSÉ SERIPIERI JÚNIOR?
Lula e Seripieri se conhecem há mais de dez anos. O petista chegou a passar um réveillon na casa de Seripieri.
A QSaúde, empresa de Junior, doou R$ 50 mil a uma campanha contra a fome promovida no jantar do Grupo Prerrogativas, em dezembro, no Rubayat, em São Paulo, onde Lula e Alckmin fizeram a primeira aparição pública juntos em meio às negociações para a chapa presidencial.
De acordo com o que está dito em vários posts desta segunda-feira, ele é um dos empresários mais próximos de Lula.
Durante a campanha, ele ofereceu um jantar em sua casa para que alguns de seus pares ouvissem os planos do então candidato. Foi também o único empresário presente ao casamento de Lula e Janja, em maio.
Isso só faz complicar o gesto do presidente eleito. E o mais curioso é como seu vice e, certamente, sua equipe de transição, relativiza o gesto.
Todo mundo sabe do enorme poder que a Presidência da República desperta entre empresários.
A questão não é não ser ilegal. A questão é de exemplo. Se o presidente aceita uma carona internacional, qualquer assessor, inclusive o seu vice-presidente, pode aceitar um convite para um congresso em São Paulo ou em Fernando de Noronha.
O presidente eleito assume com uma enorme expectativa e desconfiança sobre o comportamento. Então, não existe isso de não tem empréstimo. Não poderia nem ter carona.
Mas parece claro que o presidente eleito não está muito preocupado com isso. Aliás, sua visita é aguardada com enorme expectativa.
Mas é ruim que se saiba que ele, num dos melhores momentos de sua vida e prestes a assumir o governo pela terceira vez, se deixe envolver com esse discurso que Seripieri não vai lhe cobrar o favor por ser seu amigo.
Se ele fosse mesmo e estivesse preocupado com as consequências, sequer teria oferecido. Até porque, como ensina sabedoria popular, amigo é aquele que jamais cria problema para quem assim o considera.
Lição que certamente passa a muitas milhas da cabeça do empresário.