DESCARACTERIZAÇÃO

Crise do coronavírus faz BRTs ganharem catracas na Região Metropolitana do Recife

Todas as estações do Corredor Norte-Sul foram fechadas e Estado decidiu autorizar instalação provisória dos bloqueios nos veículos para permitir o embarque na rua

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 03/06/2020 às 7:52
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Historicamente, o Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM) aprovará o que o governo do Estado - gestor do Sistema de Transporte Público de Passageiros (STPP/RMR) - defender diante do colegiado - que ganhou mais participação da sociedade civil nos últimos dois anos, mas ainda é majoritariamente representado por órgãos e secretarias públicas - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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O tão sofrido e já descaracterizado BRT pernambucano Via Livre passa por uma nova adaptação operacional devido à crise provocada pela pandemia do coronavírus no transporte público da Região Metropolitana do Recife. Alguns veículos do Corredor Norte-Sul, o maior do sistema metropolitano e que liga a capital ao município de Igarassu, ganharam catracas para se adaptar ao embarque de passageiros na rua e, não mais, nas estações, onde o pagamento da tarifa era feito antecipadamente. A mudança começou no dia 18 de maio e, segundo garantiu o governo de Pernambuco, é provisória, sendo desfeita quando a pandemia passar.

Segundo o Estado, a adaptação foi necessária porque as estações do Corredor Norte-Sul tiveram que ser gradativamente desativadas - processo que começou no dia 1º de abril e culminou com o fechamento das 26 estações do corredor vinte dias depois. Além do custo de operação - vale lembrar que a manutenção de cada estação custava, em média, R$ 30 mil por mês -, os protocolos de higienização e distanciamento exigidos para evitar a propagação do coronavírus também pesaram na decisão de desativar o corredor de BRT, substituindo os veículos tradicionais de BRT por ônibus convencionais.

Precisamos reduzir custos, de fato, principalmente diante da perda de receita superior a 72%. E também ficou irracional operar com veículos que têm um custo pelo menos três vezes maior do que os ônibus convencionais. Principalmente diante das regras definidas pelo Estado recomendando que os coletivos andem com passageiros prioritariamente sentados. Embora os BRTs do Norte-Sul tenham 21 metros de comprimento, possuem apenas 38 assentos. Já os veículos convencionais, apesar de menores, têm 34 assentos. Foi essa a nossa lógica
André Melibeu, diretor de Operações do CTM

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Ônibus BRT passaram a circular com sistema de catraca durante a pandemia do coronavírus - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Até agora, 20 veículos BRT estão operando com catracas, sendo que dez deles já estavam rodando com bloqueios na linha TI Pelópidas/TI Joana Bezerra, adaptada para compensar a não implantação do Ramal Agamenon Magalhães, um segundo eixo do Corredor Norte-Sul projetado ainda no início dos anos 1990 pelo criador do BRT, o arquiteto curitibano Jaime Lerner. Para quem não sabe ou não lembra, o Ramal Agamenon Magalhães chegaria ao TI Joana Bezerra pela avenida e começou a ser construído pelo governo do Estado, mas a obra terminou engavetada.

De forma alguma estamos pensando em acabar com o Sistema BRT. Foi uma solução operacional e racional, adotada para reduzir custos - algo necessário diante da crise que a pandemia tem provocado em todos os sistemas de transporte público brasileiros -, sem prejudicar a população. Perdemos 75% da demanda e a frota mantida é de 53%
André Melibeu, do CTM

“Precisamos reduzir custos, de fato, principalmente diante da perda de receita superior a 72%. E também ficou irracional operar com veículos que têm um custo pelo menos três vezes maior do que os ônibus convencionais. Principalmente diante das regras definidas pelo Estado recomendando que os coletivos andem com passageiros prioritariamente sentados. Embora os BRTs do Norte-Sul tenham 21 metros de comprimento, possuem apenas 38 assentos. Já os veículos convencionais, apesar de menores, têm 34 assentos. Foi essa a nossa lógica”, explicou André Melibeu, diretor de Operações do Grande Recife Consórcio de Transportes Metropolitano (CTM), gestor do transporte metropolitano por ônibus.

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A mudança começou no dia 18 de maio e, segundo garantiu o governo de Pernambuco, é provisória, sendo desfeita quando a pandemia passar - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

NOVA DESCARACTERIZAÇÃO
Provisórios ou não, os novos bloqueios são mais uma descaracterização do sistema BRT, que têm na ausência de catracas nos veículos um dos três pilares do modelo, projetado no Brasil e no mundo para ser o “metrô sobre pneus”. Além do pagamento antecipado da tarifa ainda nas estações e terminais, a concepção do BRT prevê o embarque em nível nos veículos do sistema e a circulação em corredores exclusivos. Duas das características do modelo que também têm sido desrespeitadas no sistema pernambucano nesses quase seis anos de implantação.

Nos bastidores do setor de transporte, comenta-se que a instalação das catracas nos BRTs é uma indicação de que, no pós-pandemia, o sistema deixará de operar no conceito atual, com as estações refrigeradas e, naturalmente, com aglomerações. Mas o governo de Pernambuco nega. “De forma alguma estamos pensando em acabar com o Sistema BRT. Foi uma solução operacional e racional, adotada para reduzir custos - algo necessário diante da crise que a pandemia tem provocado em todos os sistemas de transporte público brasileiros -, sem prejudicar a população. Perdemos 75% da demanda e a frota mantida é de 53%”, garantiu André Melibeu.

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Ônibus BRT passa a circular com sistema de catraca durante a pandemia do coronavírus - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

E, segundo o diretor, a medida não foi adotada no Corredor BRT Leste-Oeste porque a operadora - a MobiPE - não tinha frota suficiente para a mudança. O Consórcio Conorte, que opera o BRT Norte-Sul, tem 20% da frota de BRTs (75 dos 444 veículos). Já a MobiPE tem quase metade da frota composta por BRTs (100 dos 224 veículos).

Almir Buonora, diretor de Operações do Consórcio Conorte, acrescenta que a mudança também foi necessária porque o consórcio terminou comprando mais BRTs do que o sistema precisaria. “Compramos 88 BRTs porque iríamos operar, também, o Ramal Agamenon Magalhães, que não saiu do papel. Além disso, começamos a ter dificuldades com a manutenção dos veículos, prejudicando a oferta dos dez BRTs Convencionais, como chamamos os BRTs que operam com o embarque pelo lado direiro do veículo e têm catraca. Eles operam na Linha TI Pelópidas-TI Joana Bezerra. Com o fechamento das estações, também passamos a ter necessidade, nos horários de pico, de usar os BRTs na Linha TI Pelópidas-Dantas Barreto, sendo necessário os bloqueios”, explica.

Compramos 88 BRTs porque iríamos operar, também, o Ramal Agamenon Magalhães, que não saiu do papel. Além disso, começamos a ter dificuldades com a manutenção dos veículos, prejudicando a oferta dos dez BRTs Convencionais, como chamamos os BRTs que operam com o embarque pelo lado direiro do veículo e têm catraca. Eles operam na Linha TI Pelópidas-TI Joana Bezerra. Com o fechamento das estações, também passamos a ter necessidade, nos horários de pico, de usar os BRTs na Linha TI Pelópidas-Dantas Barreto, sendo necessário os bloqueios
Almir Buonora, diretor de Operações do Consórcio Conorte

PERDA DE RECEITA
O Sistema de Transporte Público de Passageiros (STPP) da RMR está com apenas 28% da sua receita tarifária. Em números, significa dizer que está arrecadando apenas R$ 24 milhões dos R$ 85 milhões que deveria arrecadar mensalmente. Antes da pandemia, o sistema arrecadava R$ 1 bilhão por ano.

 

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Por enquanto, são 20 veículos BRTs com catracas - dez deles já operavam assim antes da pandemia - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

CRONOLOGIA DAS MUDANÇAS NO CORREDOR NORTE- SUL

01/04 – Desativação da Estação Praça da República aos sábados
10/04 – Todas as estações de BRT fechadas nos feriados e finais de semana
15/04 – Duas estações de BRT são temporariamente desativadas em dias úteis (Cruz de Rebouças e Miguel Arraes)
20/04 – Fechamento das demais 23 estações do corredor
18/05 – Seis ônibus especiais articulados, que operavam em linhas de BRT do Corredor Norte/Sul, recebem provisoriamente catracas e são colocados à disposição nos TIs Igarassu (3) e Pelópidas (3) dentro do esquema de veículos extras para este período de quarentena. Assim que o decreto com as recentes medidas restritivas for revogado, as catracas serão removidas e estes ônibus voltarão a sua funcionalidade normal
Meados de maio - Outros quatro veículos BRTs foram adaptados com as catracas)

Obs.: o Consórcio esclareceu que outros dez ônibus especiais articulados que operavam na linha 1909 - TI Pelópidas/TI Joana foram remanejados em 16/04 para a linha 1076 – TI Pelópidas (Parador), que está atendendo a demanda da linha 1976 – TI Pelópidas/ PCR

Citação

Precisamos reduzir custos, de fato, principalmente diante da perda de receita superior a 72%. E também ficou irracional operar com veículos que têm um custo pelo menos três vezes maior do que os ônibus convencionais. Princi

André Melibeu, diretor de Operações do CTM
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De forma alguma estamos pensando em acabar com o Sistema BRT. Foi uma solução operacional e racional, adotada para reduzir custos - algo necessário diante da crise que a pandemia tem provocado em todos os sistemas de transporte p&uacu

André Melibeu, do CTM
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Compramos 88 BRTs porque iríamos operar, também, o Ramal Agamenon Magalhães, que não saiu do papel. Além disso, começamos a ter dificuldades com a manutenção dos veículos, prejudicando a ofert

Almir Buonora, diretor de Operações do Consórcio Conorte

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